Símbolo do suposto progresso na época da ditadura militar, o boi na Amazônia tornou-se lema do atraso mais cruel e desumano perpetrado com a omissão do governo Jair Bolsonaro (PL) em território indígena, no Norte do país.
De fato, a boiada passou na Amazônia.
Assim anunciou o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, na fatídica reunião interministerial de 22 de abril de 2020, ainda no começo da pandemia do novo coronavírus.
Com os ‘olhos’ da imprensa e do público voltados para a crise na saúde, Salles disse que era momento de aproveitar para “ir passando a boiada” e mudando o regramento ambiental, especialmente com relação à Amazônia.
Órgão ‘pisoteado’ pela boiada ideológica bolsonarista, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) aponta que o garimpo ilegal em terras indígenas na região Norte aumentou mais de oito vezes entre 2016 e 2022, com significativa piora nos anos de Bolsonaro na presidência.
A atividade de garimpo em terras indígenas ganhou projeção internacional em razão da crise sanitária e humanitária na Terra Indígena Yanomami, a maior do país.
A exploração ilegal de garimpo fez com que crianças e adultos enfrentassem casos severos de desnutrição e malária, além de total abandono das autoridades que deveriam protegê-los.
Os dados do Deter (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real), do Inpe, que produz sinais diários de alteração na cobertura florestal, mostram que a área de mineração ilegal em terras indígenas estava em 12,87 km² em 2016, no governo de Michel Temer (MDB). Em 2021, na gestão de Bolsonaro, o número aumentou 787%, cerca de 114,26 km².
As atividades foram detectadas nas Terras Indígenas Yanomami, em Roraima, e em seis reservas do Pará: Sai-Cinza, Munduruku, Baú, Kayapó, Apyterewa e Trincheira/Bacajá.
“Ele foi alterando as políticas públicas, desmantelando órgãos de fiscalização e tomando um monte de medidas para tornar inefetivas as leis de proteção ambiental, tentando, deliberadamente, alterar leis no Congresso", disse Luciana Gatti, pesquisadora e coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Inpe.
Ou seja, a ‘boiada’ de Bolsonaro se traduziu em um projeto de exploração econômica na Amazônia, que contemplou desmatamento para plantação de soja, milho e exploração de minérios, na maioria das vezes de forma ilegal.
O que foi mais ‘pisoteado’, além da questão ambiental, foi a vida dos povos indígenas. Sob Bolsonaro, o número de mortes por desnutrição entre indígenas Yanomami cresceu 331% em comparação aos quatro anos anteriores. E o número de óbitos pode ser ainda maior, uma vez que os dados de 2022 ainda não foram totalmente contabilizados.