CARTAS PERDIDAS

Cartas Perdidas em Brumadinho: autores falam da emoção das mensagens

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação
Familiares de vítimas da tragédia de Brumadinho que leram cartas do Vale enviadas pelo projeto 'Cartas Perdidas'
Familiares de vítimas da tragédia de Brumadinho que leram cartas do Vale enviadas pelo projeto 'Cartas Perdidas'

Cartas de amor não falham.

Escrever uma carta para alguém em luto é um desafio extraordinário. O que dizer a quem perdeu um ente querido numa tragédia? Há consolação possível em palavras?

Mais de 400 voluntários do Vale do Paraíba assumiram o desafio de consolar os familiares das vítimas da tragédia de Brumadinho (MG), no começo de 2019.

Compartilhar amor, esperança e fé em forma de ‘escrita’ era o que melhor podiam fazer naquela época. E fizeram, mas as cartas não chegaram ao destino. Talvez estivem perdidas em meio à lama da barragem rompida que provocou 272 mortes em Brumadinho e arredores.

Mas não. Como diz o apóstolo São Paulo, o amor não falha. E cartas de amor também não. As de Brumadinho foram encontradas quatro anos depois do envio, em caixas dos Correios guardadas nos armários do (Centro de Referência da Assistência Social) da cidade. Milagre?

“Em meio à tragédia, centenas de voluntários doaram palavras de fé, esperança e amor. E, como escreveu aquele que é o maior carteiro da história, Paulo de Tarso, mais conhecido como São Paulo, o amor nunca falha. Antes perdidas, essas agora são cartas encontradas. Quatro anos depois, as mensagens seguem relevantes, atemporais, provando que o amor é o melhor remédio e, contrariando a matemática, multiplica-se quando é compartilhado”, disse Guilhermo Codazzi, jornalista e editor-chefe de OVALE.

Foi dele a ideia de criar o projeto ‘Cartas Perdidas’ em 2012, que ganhou um braço social cinco anos depois e foi responsável pelas mais de 450 cartas enviadas para Brumadinho em 2019. Encontradas, as mensagens agora chegarão aos seus destinatários.

Um dos autores das cartas para Brumadinho é o escritor Fabricio Cunha, 44 anos. Para ele, saber que a mensagem vai ajudar a vida de alguém tem “mais a ver com os movimentos do sagrado, com a beleza do ser humano, com a teimosia do seguir”.

“Pensar que uma carta dentro de um cenário de tragédia poderia e mudou a vida de alguém, eu guardo isso no relicário de eternidades e em silêncio. Celebro a beleza e agradeço a possibilidade de ter sido usado de alguma forma pela intervenção de algum sagrado humano por ter participado disso”.

Para a professora e escritora Valéria Leal Saab, 55 anos, outra autora das cartas para Brumadinho, a motivação foi “dar alguma palavra de alívio no meio daquela tragédia”.

“O projeto veio ao encontro a uma necessidade de que as pessoas pudessem receber mensagens de esperança. Acredito no poder das palavras e o quanto elas podem mudar vidas. Em outros momentos do projeto, eu pude ver isso cara a cara.”

Também autor das cartas, o jornalista e escritor José Guilherme, 63 anos, disse ter sido um “desafio enorme” escrever para Brumadinho, “tamanha a desolação daqueles que viviam na região”. “É impossível curar uma dor tão violenta, mas palavras de amor podem, sim, ser uma flor no meio da lama”.

Vice-presidente da associação dos familiares das vítimas e mãe de um dos mortos, Andresa Rodrigues disse que se emocionou ao abrir as cartas para Brumadinho.

“As palavras força, fé e esperança são muito fortes para nós, são combustíveis para seguir adiante. O projeto das cartas está de parabéns e as pessoas são muito sensíveis e fizeram um acompanhamento da nossa luta. Uma autora disse que queria vir ao nosos encontro. Saiba que você está aqui conosco”, disse.

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