O Vale do Paraíba foi palco do estopim para a escalada violenta bolsonarista que culminou nos ataques terroristas à sede dos três poderes em Brasília, neste domingo (8), cujas cenas chocaram o mundo democrático.
Maior evento popular da fé católica do país, a Festa de Nossa Senhora Aparecida de 2022, celebrada em 12 de outubro no Santuário Nacional e na Basílica Velha, foi marcada por episódios violentos de seguidores do ex-presidente.
A politização e a polarização contaminaram a festa popular. O que deveria ter sido uma celebração religiosa em homenagem à Padroeira do Brasil se transformou, com a chegada do então presidente Jair Bolsonaro (PL) ao Santuário, em um ato de campanha e com manifestações agressivas de apoiadores do presidente contra a imprensa e até padres do Santuário.
Bolsonaristas encurralaram e coagiram um jovem vestido de vermelho ao lado da Basílica. O rapaz precisou se esconder nos corredores da igreja para evitar ser agredido.
Apoiadores do presidente também hostilizaram equipe de reportagem da TV Vanguarda, afiliada da TV Globo no Vale do Paraíba, dentro do Santuário. Uma repórter disse ter tomado tapas no peito e um cinegrafista precisou se abrigar junto a colegas da TV Aparecida e, mesmo assim, as hostilidades continuaram.
Mulheres bolsonaristas ameaçaram interromper tradicionais toques de sinos da Consagração de Nossa Senhora Aparecida na Basílica Velha, pois estariam atrapalhando, segundo elas, evento religioso convocado por bolsonaristas no lado de fora do templo histórico. Detalhe: no mesmo horário da celebração da festa.
MISSA SOLENE
O arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, começou o dia da festa criticando a onda de desinformação que se alastrou pelo país em meio às eleições presidenciais, com ataques e exploração da fé e da religião.
Durante homilia na missa solene da festa de Nossa Senhora Aparecida, às 9h, no altar central do Santuário Nacional, o arcebispo voltou a falar no dragão da mentira, tema que havia abordado na mesma celebração em anos anteriores.
“Maria venceu o dragão e temos muitos dragões que ela vai vencer: o tentador, a pandemia, que foi vencida, mas temos o dragão do ódio e o da mentira, que não é de Deus”, afirmou Brandes.
“E o dragão do desemprego, da fome e da incredulidade. Com Maria, vamos vencer o mal e dar prioridade ao bem, liberdade, verdade e a justiça, porque o povo merece”, completou o religioso.
Em meio à ‘guerra santa’ que se transformou a campanha eleitoral, o arcebispo de Aparecida disse que é preciso “escutar a palavra, escutar Deus, mas também escutar o clamor do povo”. “Precisamos da fé, da oração, da solidariedade e da palavra de Deus. Escutemos Maria e o povo”.
BOLSONARO
Tentando a reeleição, Bolsonaro chegou ao Santuário Nacional um pouco antes da missa das 14h, da qual participou. Ele recebeu aplausos durante sua entrada na Basílica, e, já durante a missa, ao ser anunciado, foi ovacionado por presentes — em seguida, os aplausos se misturaram com fortes vaias.
Bolsonaro participou da missa ao lado do seu ex-ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que foi eleito governador de São Paulo.
Diante do presidente, o reitor do Santuário Nacional, padre Eduardo Catalfo, pregou na celebração religiosa criticando o ódio que se espalha pelo país.
“Amamos a Virgem Aparecida porque é negra, que tem a cor do nosso povo, sofrido, que enfrenta dificuldades, mas que tem esperança e coragem. Para que possamos vencer os dragões do ódio, da tristeza e do rancor, que nos afastam de Deus e do Evangelho”, disse o sacerdote.
ROSÁRIO
Na frente da Basílica Velha, um dos pontos mais tradicionais em Aparecida, Bolsonaro era esperado por centenas de apoiadores que se juntaram para rezar a oração do rosário, convocados pelo Centro Dom Bosco, entidade do Rio de Janeiro de leigos católicos ultraconservadores.
No entanto, Bolsonaro não compareceu e apoiadores despejaram a frustração no Santuário Nacional, acusando padres e o arcebispo de Aparecida de supostamente impedir o presidente de rezar o rosário em frente da Basílica, que faz, há 65 anos, a Consagração Solene da festa de Nossa Senhora Aparecida no mesmo local e horário.
Dentro da Basílica Velha, o padre Camilo Júnior, porta-voz do Santuário, disse que o dia dedicado a Nossa Senhora Aparecida não era para pedir votos, mas bênçãos.
Ele chegou a ser confrontado por mulheres bolsonaristas que o acusaram de atrapalhar o evento que contaria com a presença do presidente ao deixar os sinos da Basílica Velha tocarem, enquanto apoiadores de Bolsonaro tentavam liderar a oração do rosário usando um sistema de som na praça em frente ao templo.
Padre Camilo explicou às mulheres que os sinos da Basílica tocam durante uma hora para marcar a consagração de Nossa Senhora. Disse também que o evento é tradição em Aparecida.
No fim, a polarização política conseguiu dividir fiéis católicos que estavam mais preocupados em apoiar o presidente do que venerar a santa de Aparecida, no dia dedicado à Padroeira do Brasil. Tal fanatismo chegou ao ápice nos ataques a Brasília.