Os reflexos da pandemia do coronavírus, da crise econômica e da instabilidade política do país punem mais severamente os jovens negros, que têm mais dificuldade em obter estabilidade econômica do que jovens brancos na mesma situação financeira.
Pesquisa da Fundação Seade coloca outro ingrediente nesse caldeirão: a maioria dos jovens negros trabalha e não estuda. Ou seja, não consegue manter o trabalho e os estudos ao mesmo tempo, piorando a sua condição de escolaridade em comparação aos jovens brancos.
Conceitualmente, a pesquisa considera jovens negros os pretos, pardos e indígenas, em contraposição aos jovens não negros – brancos e amarelos.
De acordo com a Fundação Seade, a dificuldade dos jovens para entrar no mercado de trabalho é conhecida, assim como o fato de que a escolaridade amplia suas chances. Nesse aspecto, observam-se diferenças importantes entre negros e não negros.
Em 2021, 22% dos negros de 18 a 24 anos e 37% dos não negros estudavam. A maioria de jovens negros nessa faixa etária ou trabalhava, ou procurava trabalho, ou pertencia à categoria “nem-nem” – não estudava, nem trabalhava e nem procurava trabalho.
A proporção de jovens negros que não estudam, nem trabalham e nem procuram trabalho passou de 12%, em 2019, para 13%, em 2021 (179 mil pessoas).
Já a parcela de jovens não negros “nem-nem” permaneceu em 11% no período (176 mil pessoas).
Para os dois grupos de jovens nessa condição, houve aumento da parcela de homens e ligeira queda da proporção de mulheres, com a diferença que, entre os negros, o acréscimo percentual do contingente masculino foi mais intenso do que a redução observada para as mulheres.
As jovens são maioria no contingente de “nem-nem”, sendo que muitas delas se ocupam com o trabalho não remunerado dentro do domicílio: 41% dessas jovens negras e 36% das não negras cuidavam dos afazeres domésticos, seja dos próprios filhos ou de parentes em 2021, proporções menores que as verificadas em 2019. Entre as jovens responsáveis pelo domicílio em que moravam, 66% tinham filhos em 2021.
Entre 2019 e 2021, ainda segundo o Seade, aumentou o nível de escolaridade do total de jovens de 18 a 24 anos: a parcela com pelo menos o ensino médio completo passou de 78% para 81%, crescimento também verificado para os jovens “nem-nem”, tanto para os negros (de 59% para 67%) como para os não negros (de 73% para 78%).
Com o aumento mais intenso da escolaridade para os negros, a diferença entre esse grupo e o de não negros, no período considerado, diminuiu de 14% para 11%.
BRASIL
Em outubro deste ano, o relatório ‘Education at a Glance 2022’ em parceria com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) revelou que o Brasil é o segundo país do mundo com a maior proporção de jovens, com idade entre 18 e 24 anos, que não trabalham e nem estudam -- a geração ‘’nem-nem’’.
Segundo levantamento, cerca de 36% dos jovens brasileiros estão nessa situação. Ao contrário do Brasil, a Holanda tem apenas 4,6%.
O indicador considera que pessoas de 18 a 24 anos estão em transição do estudo para o trabalho e conclui que não ter uma atividade profissional pode causar "consequências duradouras, especialmente quando a pessoa passa por períodos longos de desemprego ou inatividade".