‘Meu partido é o Brasil’ foi um dos slogans mais ouvidos de grupos bolsonaristas durante a campanha eleitoral deste ano.
Em apoio ao presidente derrotado nas urnas, Jair Bolsonaro (PL), a frase incute uma ideia transversal, divisionista e reacionária: “Quem não está comigo é meu inimigo”.
No meio dessa retórica separatista, militantes bolsonaristas promoveram um ‘sequestro’ de símbolos nacionais, em especial da bandeira brasileira – usada para embalar atos antidemocráticos – e da camisa da Seleção Brasileira, que virou espécie de ‘uniforme’ de militantes do presidente.
“Pedir intervenção militar usando uma camisa do Brasil e se dizendo patriota é uma completa cegueira irracional e reacionária. Coisa de ditaduras em republiquetas”, disse Suzeley Kalil, mestre em Ciência Política, doutora em Ciências Sociais e membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional da Unesp (Universidade Estadual Paulista).
É nesse clima de ‘conspiração patriótica’, em que se usa a democracia para golpear a própria democracia, que o Brasil disputa mais uma Copa do Mundo de futebol.
A Seleção Brasileira, instituição nacional, vai tentar o hexacampeonato no Qatar em um inédito torneio da Fifa disputado no final do ano.
Enquanto a bola rola no Oriente Médio, o país vive um distanciamento dos símbolos nacionais, com diversas tentativas de reaproximação e desintoxicação da usurpação ideológica.
O atual momento tem algum paralelo, embora o contexto seja muito diferente, com a Seleção Brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1970, no México. Liderados por Pelé, o escrete nacional viveu também a polêmica de jogar pelo país governado por uma ditadura militar.
“Vencer naquela época seria ajudar o golpe? Há quem tenha defendido torcer contra a seleção para não apoiar a ditadura. Eu não fui capaz de fazer isso, embora fosse totalmente contrário aos militares no poder”, contou o jornalista e sociólogo Juca Kfouri em seu livro de memórias.
CAMPANHAS
Responsável pelo time nacional, a CBF começou uma campanha para promover a camisa da seleção brasileira e dissociá-la da questão política, em razão de ter sido usada largamente como símbolo pelos apoiadores de Bolsonaro.
O primeiro ataque da CBF foi lançar um vídeo institucional para devolver a ‘amarelinha’ ao povo brasileiro, sem qualquer distinção.
No vídeo, há um rap com o refrão de trecho da música de Lulu Santos: “Ela me faz tão bem, Ela me faz tão bem/Que eu também quero fazer isso por ela”. Trata-se de referência à camisa da Seleção.
"É o início de uma campanha institucional. Passará na TV aberta e fechada, e redes sociais. É para mostrar que todos podem se sentir bem com a camisa da seleção", disse o presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, durante o evento de convocação da Seleção Brasileira.
Quem também busca resgatar os símbolos nacionais ao país é o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que derrotou Bolsonaro com a maior votação da história do país, 60,3 milhões de votos.
Em publicação nas redes sociais, Lula incentivou a população a usar a camisa da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Ele próprio prometeu usar o uniforme durante o torneio.
“A Copa do Mundo começa daqui a pouco e a gente não tem que ter vergonha de vestir a camiseta verde e amarela. A camiseta não é de partido político, é do povo brasileiro. Vocês vão me ver usando a camiseta amarela, só que a minha terá o número 13”, publicou o presidente eleito.
Nas redes sociais, brasileiros contrários a Bolsonaro chegaram a afirmar que deixarão de usar a camisa da Seleção Brasileira, ao menos a amarela, em razão da ‘apropriação’ do bolsonarismo do uniforme.
“Não quero ser confundido com reacionário” é a explicação mais comum para abandonar a amarelinha, movimento que a CBF tentar desfazer com sua campanha institucional de recuperação do símbolo nacional.
Fanático por futebol, o ensaísta e professor de literatura da USP (Universidade de São Paulo), José Miguel Wisnik, que explorou as relações entre o futebol e o imaginário coletivo brasileiro no livro ‘Veneno Remédio’ (Companhia das Letras), disse em live na internet que mesmo o futebol, uma paixão nacional, não é capaz da “magia de criar unanimidades”.
Para ele, a Seleção Brasileira “não é redutível a um uso político que se faça dela”. Wisnik também criticou que adotou uma posição “puramente reativa” de negar a camisa canarinho. “Dizer que a camisa foi apropriada é entregar o ouro”.
Wisnik afirmou que, ao mesmo tempo em que a seleção representa “instituições corruptas como a CBF e manipulações políticas”, ela é a “expressão da cultura brasileira e da nossa força criativa”.
No livro, o professor explicou que a relação da sociedade com a seleção é pendular e, em geral, envolve uma combinação de sucesso com fracasso que se articula com a realidade do país de maneira oposta: quando um vai bem, o outro vai mal. “Se essa gangorra funcionar neste ano, a Copa do Mundo é nossa”, completou.
Sem dilema, torcedor veste o que quiser, e põe a política no banco para vibrar pela seleção.