EXTREMISMO

Brasil assiste escalada de episódios de violência, racismo e intolerância

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação
Grupo pró-Bolsonaro acampado em Brasília: referência a extremistas da Ucrânia
Grupo pró-Bolsonaro acampado em Brasília: referência a extremistas da Ucrânia

Dio, patria, famiglia.

O bordão do fascismo italiano ganhou nova versão brasileira na campanha do presidente Jair Bolsonaro (PL), que reforçou o apelo por ‘Deus, pátria, família e liberdade’ durante o período eleitoral.

Derrotado nas urnas, Bolsonaro adotou o silêncio enquanto apoiadores foram às ruas pedir intervenção militar em afronta ao estado democrático de direito.

O slogan bolsonarista foi repetido à exaustão em inúmeras cidades do país, a exemplo da Ação Integralista Brasileira, movimento brasileiro dos anos 1930 que flertava com o fascismo italiano e o ideário nazista.

Desde a derrota no segundo turno, quando perdeu a eleição para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Bolsonaro não fez nenhuma menção em repudiar episódios preocupantes de racismo, intolerância e desprezo pela pessoa humana.

Em Valinhos (SP), alunos de um colégio privado de elite criaram grupo de WhatsApp chamado "Fundação Anti Petismo". Nele, com mais de 30 participantes, colegas da escola trocaram mensagens racistas, misóginas e de conteúdo nazista, além de compartilhar imagens e frases de Adolf Hitler e Benito Mussolini.

Os alunos também defenderam a morte de nordestinos e a "reescravização do Nordeste" e organizaram uma manifestação contra a eleição de Lula.

A mãe de um aluno negro incluído no grupo denunciou o caso e a direção expulsou oito alunos, cujos pais pedem reintegração na Justiça.

Nas redes sociais, um vídeo com jovens de outra escola privada também mostra os alunos tecendo comentários racistas e preconceituosos contra pobres e nordestinos, banalizando a intolerância.

Um pastor evangélico do Rio de Janeiro disse em pregação que nunca mais iria ao Nordeste, que nordestinos gostavam de viver de migalhas e que petistas eram inimigos de Deus. Dias depois, ele gravou um vídeo arrependendo-se das declarações.

Após a vitória acachapante de Lula no Nordeste, o empresário e prefeito de Betim (MG), Vittorio Medioli, defendeu a separação do Nordeste do Brasil. Apoiador de Bolsonaro, ele disse que a “divisão territorial, por meio de um divórcio consensual, está com suas sementes se espalhando”.

Em show no Grêmio Náutico União, em Porto Alegre, em 14 de outubro, o cantor Seu Jorge foi alvo de ofensas raciais. Diante do episódio, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul vai conceder a Medalha do Mérito Farroupilha ao cantor. A medalha é a mais alta honraria do parlamento gaúcho.

Em São José dos Campos, paredes, placas de trânsito e banner da Virada Cultura SP foram pichados com mensagens nazistas. Termos usado por supremacistas brancos dos Estados Unidos e símbolos do Nazismo foram utilizados nas pichações.

Os episódios revelam uma escalada do autoritarismo e de simpatia por regimes violentos no Brasil, como o fascismo italiano e o nazismo alemão.

Desde a vitória de Lula, listas circulam em várias cidades da região e do país com nomes de comerciantes, profissionais liberais e políticos que deveriam ser boicotados por supostamente terem votado no petista.

Na cidade de Casca (RS), bolsonaristas espalharam mensagens nas redes sociais pedindo que comerciantes locais colocassem adesivos com a estrela vermelha do PT na frente de seus estabelecimentos. A prática reproduz o nazismo alemão, que obrigou comerciantes judeus a colocar a estrela de Davi em suas lojas na década de 1930.

“O que está acontecendo no Brasil é uma repetição do que ocorreu na Itália na década de 1930, com a ascensão do fascismo. A mesma violência”, disse a jornalista Lúcia Helena Issa, estudiosa do assunto. “É criminoso e destruiu a economia italiana. O Brasil tem que ficar atento a esse movimento autoritário”.

“A violência está impregnada no nosso país. Onde existe corrupção, miséria e falta de educação desemboca na violência. É conjuntural”, disse a escritora e pesquisadora Maura Palumbo, especialista em Segunda Guerra Mundial e Nazismo.

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