BASTIDORES

Bolsonaro tentou anistia no STF e só fez pronunciamento após garantir cargo no PL

Por Da Redação | São José dos Campos
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Isac Nóbrega/PR
Jair Bolsonaro durante pronunciamento após derrota na eleição
Jair Bolsonaro durante pronunciamento após derrota na eleição

O relógio marcava 19h57 no último domingo (2) quando o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) oficializou o resultado da eleição presidencial. Com 98,81% das urnas apuradas até então, Lula (PT) tinha 50,83% dos votos válidos e já não poderia mais ser alcançado por Jair Bolsonaro (PL), que buscava a reeleição.

O baque provocado pela notícia foi grande no Palácio da Alvorada, onde o presidente acompanhava a apuração ao lado de um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Era a primeira vez que um presidente brasileiro era derrotado em sua tentativa de reeleição. Também foi a primeira vez que Bolsonaro perdeu nas urnas - ele sempre havia vencido nos votos, desde a década de 1980, quando virou vereador.

Bolsonaro, que confiava que seria reeleito, ficou inconformado. Não quis falar com ministros ao telefone, e muito menos recebê-los. Se reuniu apenas com seu candidato a vice, o general da reserva Braga Netto (PL). Depois, procurou saber se a fiscalização feita pelas Forças Armadas nas urnas havia encontrado algo de irregular no segundo turno. Após a resposta negativa, foi dormir. Já às 22h06, as luzes do Palácio da Alvorada foram apagadas.

Bolsonaro encerrou o domingo sem fazer qualquer pronunciamento para reconhecer o resultado da eleição. Mas não foi acompanhado por alguns dos principais aliados de seu governo. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), por exemplo, foi um dos primeiros a parabenizarem o petista. Indicado por Bolsonaro e bastante criticado pela oposição por poupar o presidente da República de investigações, o procurador-geral da República, Augusto Aras, fez o mesmo.

Até os aliados do núcleo mais radical de Bolsonaro, como a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP), o deputado federal eleito Ricardo Salles (PL-SP), que foi ministro do Meio Ambiente, e a senadora eleita Damares Alves (Republicanos-DF), ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, usaram as redes sociais para reconhecer a derrota do presidente.

Na segunda-feira (3), Bolsonaro cumpriu um expediente mais curto no Planalto. Já estava de volta à residência oficial por volta das 16h. Enquanto ele relutava em fazer um pronunciamento, o apoio político ao presidente evaporava. Sem chance de contestar o resultado das urnas, o foco passou a ser o futuro mais imediato. Em janeiro, após quase 30 anos, Bolsonaro deixará de ter foro privilegiado.

Na manhã de terça-feira (4), Bolsonaro fez chegar ao STF (Supremo Tribunal Federal) a informação de que faria um pronunciamento à nação após se encontrar com ministros da Corte. Indicados pelo presidente, André Mendonça e Kassio Nunes Marques chegaram a confirmar presença, mas os demais bateram o pé: só receberiam Bolsonaro após o reconhecimento público do resultado da eleição. O receio era que o presidente aproveitasse os protestos golpistas que aconteciam no país para chantageá-los, pedindo um compromisso de anistia em inquéritos que envolvam ele e a família.

Nesse meio tempo, Bolsonaro se preocupava em resolver outro problema de efeito mais imediato: seu futuro político. Acertou com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que terá um cargo no partido após deixar a presidência. Isso lhe garantirá um polpudo salário, uma mansão na região nobre de Brasília e um escritório político. Além disso, sem foro privilegiado, contará com os advogados do PL para sua defesa.

Na tarde de terça-feira, com o futuro já alinhado, Bolsonaro quebrou o silêncio que durava quase 48 horas - desde a redemocratização do Brasil, ele foi o primeiro presidente a não reconhecer o resultado da eleição imediatamente após o término da apuração. Em um curto discurso, de dois minutos, agradeceu os 58 milhões de votos que recebeu, mas não citou o nome de Lula.

Depois do pronunciamento, Bolsonaro foi recebido no STF. Segundo o ministro Edson Fachin, o presidente sinalizou que aceita a derrota na eleição. "O presidente da República utilizou o verbo acabar no passado. Ele disse 'acabou'. Portanto, olhar para frente".

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