Do mito à mitologia.
Ao vencer o 'mito' com a votação mais expressiva da história nacional, mas também a menor margem desde a redemocratização, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá em 2023 trabalhos tão duros quanto Hércules teve em suas 12 tarefas.
Passada a euforia da eleição, o grande desafio será assumir um país dividido, com parte do povo indo às ruas e bloqueando estradas por não aceitar Lula como presidente. O petista sabe que terá que governar para todos e seu 'Leão de Neméia' será a unificação.
"A ninguém interessa viver num país dividido, em permanente estado de guerra", disse Lula em seu primeiro discurso após a vitória.
A imensa 'Hidra de Lerna' simboliza a fome e a miséria que aumentaram no país e terão que ser enfrentadas pelo novo governo. São 33 milhões de pessoas passando fome e Lula terá que resolver a calamidade social.
Uma das 'cabeças' da venenosa Hidra é arranjar dinheiro para garantir o Auxílio Brasil de R$ 600 e aumento real do salário mínimo, promessas de Lula. O presidente Jair Bolsonaro (PL) também prometera ambos, mas não os colocou no Orçamento para 2023. Por isso, Lula já busca apoio do Congresso para gastar R$ 200 bilhões no próximo ano.
Gastar mais ameaça o equilíbrio fiscal, o 'Javali de Erimanto' de Lula. O desafio é aumentar os gastos sociais sem quebrar o governo, que já tem um rombo fiscal de R$ 400 bilhões para 2023, segundo estimativa do economista Henrique Meirelles, cotado para compor o governo Lula.
Meirelles e Lula sabem que a melhor arma contra a 'Corça Cerinéia' de gastos versus equilíbrio fiscal é o crescimento econômico. O país precisa gerar emprego de qualidade, reduzir a informalidade e melhorar a produtividade.
Nesse contexto, será imperioso enfrentar o 'Touro de Creta' da vida brasileira: as reformas. O país precisa rever a tributação que penaliza os mais pobres, a bomba relógio da Previdência Social e ajustar as regras trabalhistas aos novos tempos digitais, além da reforma administrativa e política, dois dos 'chifres' mais duros deste touro bravo.
De uma só vez, Lula terá pela frente as 'Aves do Estínfale' e as 'Cavalariças de Áugias' em forma da relação com o Congresso e do ardiloso Orçamento Secreto, que dominaram e enfraqueceram Bolsonaro. O petista terá que encarar o Centrão, fazer um governo amplo para além dos apoiadores e negociar as tais emendas do relator, parente próxima do mensalão.
Os temidos 'Bois de Gérion' da saga hercúlea materializam-se a Lula na forma da corrupção, tema que o perseguiu durante toda a campanha. O presidente terá que fazer diferente dos mandatos anteriores e barrar qualquer sanha pouco republicana. Domar esse monstro sob pena de naufragar na história. "Vamos reconquistar a credibilidade, a previsibilidade e a estabilidade do país", disse Lula.
O petista terá um encontro com temas desafiadores em 2023, como a proteção ambiental, a violência contra as mulheres e a segurança pública, simbolizados nas 'Éguas de Diomedes' e no 'Cinto de Hipólita'. Terá que enfrentá-los como fez Hércules. No discurso, Lula falou em buscar desmatamento zero na Amazônia, ampliar as políticas públicas para as mulheres e tornar o país mais seguro.
O herói mitológico sustentou o mundo em suas costas, no lugar de Atlas, ao buscar os 'Pomos de Ouro'. Lula terá um trabalho parecido para retomar a boa imagem do Brasil no exterior, destruída no governo Bolsonaro.
Brigas com a China, ofensas a líderes estrangeiros, negacionismo e descontrole na Amazônia tornaram o Brasil um pária internacional. Tanto que o The New York Times apontou a eleição no Brasil como "dia mais importante para o Planeta Terra".
Lula terá que resgatar devolver ao país o protagonismo no cenário internacional. "O Brasil não pode ser pária. Precisa liderar a economia verde", disse o cientista Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe cotado para assumir o Ministério da Ciência e Tecnologia.
Outros dois desafios se transfiguram em Cérbero, cão de três cabeças e cauda em forma de serpente que guardava a entrada do Hades, o mundo subterrâneo. O trabalho de vencer o 'Guardião do Hades' foi o último do mito grego, mas não terá que ser uma das prioridades de Lula: garantir a governabilidade e enfrentar a 'guerra institucional' entre os poderes, fomentada pela postula beligerante de Bolsonaro.
A seu favor, Lula conta com experiência como presidente do Brasil e mais simpatia dos outros poderes do que seu adversário, até pela postura de conciliação que imprimiu em seus dois mandatos anteriores.
Apagar as chamas do 'inferno institucional' alimentado por Bolsonaro deve ser uma das primeiras medidas do governo Lula, que convocou seu fiel escudeiro para a tarefa. O petista escalou o experiente e conciliador Geraldo Alckmin (PSB), eleito vice-presidente, para comandar a transição com o atual governo.
Alckmin já conversou com Bolsonaro, estabeleceu os primeiros movimentos com o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, e marcou para segunda-feira (7) o início do fluxo de informações para os trabalhos de transição.
"Objetivo é a transparência, planejamento e continuidade dos serviços prestados à população. Que a gente possa ter todas as informações", disse o ex-governador de São Paulo, representante da RMVale no governo federal.