O homem do passado.
É assim que a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz caracteriza o presidente Jair Bolsonaro (PL), que tenta a reeleição. Para ela, trata-se de alguém “absolutamente repleto de passado”.
O presidente origina-se em um Brasil que tem a desigualdade como projeto de nação, que mantém privilégios enquanto acossa a maioria minorizada, como mulheres, negros e pobres.
Segundo a professora da USP (Universidade de São Paulo), a reação das elites frente ao empoderamento dos pobres tem relação com a ascensão do bolsonarismo, fenômeno que desvela a “característica autoritária da sociedade brasileira, assentada numa estrutura racista”.
“Brasil é um país profundamente racista, que traz nas suas estruturas o racismo. Um país profundamente intolerante, mas que gosta de se autorrepresentar pelo oposto”, afirma Lilia. Ou seja, no discurso, o amor. Na ação, a dor.
A democracia, nesse contexto, gruda na retórica bolsonarista e foge da prática. Para a antropóloga, o que há de inédito sob Bolsonaro é que o governo dele é “composto por um grupo que não demonstra apreço pela democracia”.
“É um governo que gosta de falar da sua intolerância, um governo de supremacistas brancos que representam uma classe social e uma religião em um país laico e que não nega isso. É um governo que incita a divisão, incita o ódio. Isso é uma grande novidade.”
É justamente a democracia que está sob risco no país. A ameaça não vem mais de fora, de golpes e invasões violentas, como fez o general Augusto Pinochet -- a quem Bolsonaro admira -- em setembro de 1973 ao bombardear o Palácio de La Moneda, sede do governo chileno. O então presidente socialista Salvador Allende se suicidou.
A democracia erode por dentro, pelas fissuras no próprio tecido democrático, com reiterados ataques às instituições, desconfiança do sistema político, das eleições, dos partidos, das lideranças democraticamente eleitas, da imprensa, do Judiciário.
“Os políticos agora tratam seus rivais como inimigos, intimidam a imprensa livre e ameaçam rejeitar o resultado de eleições. Eles tentam enfraquecer as salvaguardas institucionais de nossa democracia, incluindo tribunais, serviços de inteligência, escritórios e comissões de ética”, escrevem Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, professores de Harvard (EUA), no livro “Como as democracias morrem”, best-seller mundial.
Na obra, Levitsky e Ziblatt falam mais especificamente dos Estados Unidos, mas a receita vale para o Brasil.
Lá como aqui, a implosão da democracia é feita por dentro, como ocorreu na eleição americana com o derrotado Donald Trump rejeitando o resultado e falando em fraude eleitoral, o que culminou na invasão ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, um dos maiores símbolos da democracia estadunidense. Cinco pessoas morreram nos dias seguintes ao ataque e 140 policiais ficaram feridos.
Vemos uma repetição da mesma narrativa golpista no Brasil, encampada por Bolsonaro, seus filhos, ministros, parlamentares e apoiadores. Acusações infundadas e sem provas contra o sistema eleitoral brasileiro, incentivo a eleitores fiscalizarem as urnas – a quem pregue filmar a votação escondido ou até quebrar a urna – e onda de fake news para amedrontar a população.
Vivemos um clima de distopia e de realidade paralela baseada em desinformação, como mentiras de que igrejas serão fechadas e o comunismo vai voltar, quando nunca foi implantado no Brasil.
O paradoxo da democracia é que, ao mesmo tempo em que Bolsonaro ataca as bases democráticas do país e mantém apoio de milhões de brasileiros, pesquisas mostram que a maioria da população apoia a democracia. Só que apoiar e votar em pautas antidemocráticas não combina.
“É surpreendente esse apoio que Bolsonaro tem. É triste e frustrante. Precisamos entender a sociedade que vem se tornando extremamente conservadora”, disse o engenheiro Ivo Herzog, presidente do conselho do Instituto Vladimir Herzog, seu pai que foi torturado e assassinado por agentes do regime militar, em 1975.