No belo e grandioso Palácio dos Jequitibás, inaugurado em 1968 e sede da Prefeitura de Campinas, o prefeito Dário Saadi (Republicanos) coloca o enfrentamento da pandemia do coronavírus como o maior feito de sua gestão de quase dois anos.
Mas não só. Também médico, Dário almeja deixar a cidade com mais crianças em creches, com melhor atendimento em saúde e com mais emprego e oportunidades, fazendo da inovação e tecnologia motores para o desenvolvimento sustentável.
“Vamos impulsionar o setor de inovação e tecnologia e fazer de Campinas o Vale do Silício do pais”, disse o prefeito da cidade. Confira.
Em quase dois anos, o que o sr. já fez?
A ação mais importante que fizemos foi o enfrentamento da pandemia, que levou mais da metade do período de governo. Tivemos um enfrentamento muito difícil, mas também com sucesso. A cidade atendeu todos os moradores de Campinas e boa parte da população da região. Não deixamos ninguém sem atendimento. Implementamos um sistema de vacinação entre os melhores avaliados do país, com hora marcada, sem fila e aglomerações. O atendimento à pandemia marcou a primeira parte desse governo.
Como médico, como foi combater a pandemia?
Foi muito difícil ter a condição de prefeito na segunda onda, que foi mais aguda e devastadora. Chegamos a ter mais de 230 pacientes aguardando para internação em UTI e enfermaria. Primeiro, que resolvemos divulgar todos os dados, sem dados sigilosos ou escondidos da população. Também contamos com o apoio da rede privada.
A experiência pessoal me fez sofrer mais do que o normal. Quando via os números, sabia realidade das unidades de saúde que temos em Campinas, que visitava regularmente. Fiquei muito agoniado. No auge da pandemia, precisei fazer uma intervenção em um hospital privado e fazer de lá uma unidade para atender Covid.
Quais lições a pandemia deixou? O que precisa melhorar?
Primeiro, a importância do SUS. Segundo, que a cidade tem que ter uma estrutura de saúde adequada, não só para os atendimentos do dia a dia, mas também para períodos como a pandemia. Terceiro, é importante ter articulação e parceria com o setor privado. Chegamos a ter mais de 170 leitos de UTI só do município. Toda essa articulação com o setor privado foi fundamental para combater a pandemia.
Anunciado em 2012, com prazo de entrega em 2016, o Trem Intercidades ainda está no papel. O sr. acredita no projeto?
Tenho esperança no Trem Intercidades. Foi anunciado há mais de uma década e acredito que há dificuldade do equilíbrio econômico-financeiro desse prolongamento do trem até Campinas, porque ele é vinculado à concessão da Linha 7 do Metrô. Estou acreditando no compromisso do governo do estado de São Paulo. Para Campinas, é muito importante o projeto, por ativar o modal ferroviário de passageiros que já importante demais na cidade e tenta diminuir o fluxo de veículos no sistema Anhanguera-Bandeirantes.
O governo do sr. apresentou o projeto ‘Nosso Centro’ para revitalizar a região central. Qual é a diferença de outras propostas de gestões anteriores? E como transformar o centro da cidade?
O desafio dos centros das grandes cidades é imenso, é mundial. A nossa proposta envolve série de ações e vou falar especificamente do incentivo tributário. Pela primeira vez uma Prefeitura de Campinas vai abrir mão do IPTU para imóveis que fizeram a reforma. A partir da aprovação da lei na Câmara, quem fizer reforma no seu imóvel por ter isenção de IPTU de dois a 11 anos. Também temos a revitalização da avenida Campos Salles e do Parque Ferroviário, que depois de décadas uma área de 200 mil metros foram passados para o município, que pode ocupá-lo. É uma iniciativa que está em andamento. Acredito que esse conjunto de ações é diferente de tudo o que foi tentado no centro, como o desconto de IPTU.
O projeto está na Câmara?
Sim. Ficou um mês em audiência pública. Foi muito bem aceito. É claro que há demandas de isenção de impostos para outros lugares, mas temos a responsabilidade fiscal. Não é tão fácil abrir mão da receita, tem que ser muito bem planejado.
Dados do Caged mostram uma recuperação do emprego formal em Campinas, puxada pelo setor de serviços e comércio. Como gerar mais vagas em postos de maior qualificação?
Tivemos um conjunto de ações que chamamos de Paes (Programa de Ativação Econômica e Social) de Campinas, que contempla de 20 ações e a grande maioria por meio de leis aprovadas na Câmara, responsáveis pela região de Campinas ter sido a maior geradora no estado. Durante a pandemia, fizemos a lição de casa.
Tivemos a redução de IPTU, a nova lei de incentivo para atrair empresa, onde entram as indústrias. Dependendo da quantidade de investimento e número de empregos gerados, empreendedor pode ter benefício de milhões de reais, o que foi muito bem aceito no mercado. Esse conjunto está ajudando a retomada econômica de Campinas.
Para os bares, restaurantes e eventos, e Campinas é polo de turismo de negócios, fizemos uma nova lei de eventos que desburocratizou e ajudou a gerar empregos. Claro, o Caged mostra que foram empregos que não têm um salário alto como gostaríamos, mas vamos continuar trabalhando para melhorar essa questão.
O Seade aponta que Campinas lidera o anúncio de investimentos em 2022. É sinal da retomada?
Sim, também da retomada econômica do país, mas Campinas lidera por conta das ações do município. A cidade não consegue crescer independente da economia do país, mas esse protagonismo do município tem muito a ver com esse crescimento. Criamos sistema de qualificação profissional, de inspeção municipal e hoje há autorização para produto de origem animal ser comercializado com selo de Campinas.
Também tivemos a desburocratização para abertura de empresas e empreendimentos imobiliários. Não está ideal como a gente gostaria para um ano e nove meses de governo, mas avançamos muito mesmo com a pandemia drenando nossa energia.
Campinas iniciou o processo de mudança no zoneamento de uma área de 17 milhões de m² para implantação do Polo de Inovação e Desenvolvimento Sustentável. Quer transformar Campinas no Vale do Silício brasileiro?
Campinas já é cidade vocacionada e considerada no polo das tecnologias. O ecossistema de inovação tem as condições de ser uma cidade que tem startups e setor de tecnologia gerando conhecimento e riqueza. Essa área estava há muitos anos meio que congelada, destinada apenas para o setor comercial. Terminamos o estudo para a nova ocupação urbana.
Dentro dessa área, temos área de 12 milhões de m² que tem projeto ousado para o HIDS (Hub Internacional de Desenvolvimento Sustentável), que fica entre a PUC e Unicamp e série de estruturas que tentamos junto com universidades, institutos de pesquisa e empresas para fazer área vocacionada para tecnologia, inovação e o desenvolvimento sustentável. Um esforço muito grande para que Campinas se consolide como o novo Vale do Silício do país.
Nesse sentido, há perspectiva de parcerias com o Vale do Paraíba?
Conhecemos bastante o Parque Tecnológico de São José dos Campos e é uma iniciativa fantástica. Dentro da experiência que São José teve, estamos tentando criar um modelo parecido, mas com as características de Campinas para impulsionar nosso setor de inovação e tecnologia.
Existe a possibilidade de concessão de parques públicos para a iniciativa privada?
Sim, existe. Temos parques emblemáticos em Campinas. Nossa preocupação é que alguns serviços que hoje são gratuitos passarão a ser cobrados pela iniciativa privada, que não vai fazer gestão por compromisso social, mas tem que ser remunerada. O Ginásio Taquaral tem raríssimos eventos cobrados. Jogos da Superliga entra com um quilo de alimento. Se passar para a iniciativa privada, a população vai gostar de pagar?
Não temos problema em fazer concessões, mas estudamos com muito critério. Há parques muito bem avaliados pela população e a concessão vai começar a cobrar serviços que hoje são gratuitos. Estamos estudando tudo isso com bastante critério.
Como o sr. avalia as denúncias contra o presidente da Câmara de Campinas, vereador Zé Carlos?
Não acredito que atrapalhe a relação com a prefeitura. A atitude do presidente de se afastar do cargo de vereador é importante, para que os órgãos de controle façam as apurações sem o presidente no exercício. Isso vai permitir que os órgãos verifiquem é esclareçam as denúncias, com uma apuração isenta.
Que postura o sr. adota na prefeitura com relação à corrupção? É tolerância zero?
Sim, tolerância zero. A Prefeitura de Campinas é muito grande. É claro que aparecem muitas denúncias com interesses políticos e de grupos econômicos contrários. Tem que saber filtrar. Existindo indícios, a gente age rápido para sanar o problema e apurar responsabilidades. A corrupção é um problema muito sério e todo gestor tem que ficar atento.
O sr. condenou publicamente o ataque que o deputado Douglas Garcia, que é do seu partido, fez contra a jornalista Vera Magalhães. Como vê esses ataques? Como é a relação do sr. com a imprensa?
Minha relação com a imprensa é muito boa. É claro que não concordamos com tudo o que é publicado, mas a relação é muito boa. Lamento muito esses ataques. A imprensa livre é um pilar fundamental no estado democrático de direito. Não há democracia sem imprensa livre. Em algum momento, posso discordar de alguma forma que a imprensa trata o assunto, de abordagens ou manchetes. Mas isso jamais me permite questionar o trabalho do profissional da imprensa. A palavra fundamental é respeito. Se cada um se colocar no seu lugar e respeitar o papel do outro, não teremos problemas. Fiquei extremamente revoltado com a postura desse deputado.
O sr. é do Republicanos que tem o Tarcísio de Freitas como candidato ao governo de São Paulo, apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro. Um dos principais aliados políticos do sr., o ex-prefeito de Campinas Jonas Donizette, é do PSB e tem Geraldo Alckmin como candidato a vice na chapa de Lula, que apoia Fernando Haddad. Como fica o apoio do sr.?
Entendemos que uma eleição em Campinas tem que fazer uma composição de forças. Numa cidade como a nossa, no estado ou no país, ninguém ocupa o cargo sozinho. Faz-se uma aliança de forças políticas baseada num programa de governo. E, quando há uma eleição estadual, é natural que alguém siga um caminho diferente. Respeito a posição do ex-prefeito Jonas. Ele faz o trabalho dele e eu faço o meu, e nos respeitamos. Isso não interfere na condução administrativa da cidade.
Se você tiver respeito no decorrer das campanhas, deixa portas abertas para uma convivência democrática. O prefeito de Campinas tem que dialogar com o governador e o presidente, seja de que partido for. A democracia exige o diálogo não só com aqueles que concordam com você, mas com os que pensam diferente, há ainda o diálogo institucional. Tenho meu trabalho partidário, mas não coloca acima dos interesses da cidade.
Como o sr. espera deixar Campinas?
Melhor do que peguei. Com mais crianças nas creches, melhor atendimento na saúde, com mais emprego e renda, com qualidade de vida melhor.
A desigualdade aumentou?
Sim, aumentou no decorrer da pandemia, que impactou muito o sistema de saúde, aumentou a fila de cirurgias e procedimento e levou muita gente para a pobreza. Aumentamos os programas sociais e fizemos, no ano passado, o Campinas Sem Fome, arrecadando 100 mil cestas básicas. Distribuímos por meio de 140 entidades conveniadas, discretamente, sem nenhum tipo de publicidade. Esse programa ganhou o respeito, fora as cestas que a educação entregou. Estamos preparando para o próximo mês a ampliação dos programas sociais, não só no número, mas nos valores que fazemos. Precisamos aprovar na Câmara com o novo orçamento.