‘Desindústria’ – palavra que ainda não é encontrada em dicionários – pode se transformar no termo da década no Vale do Paraíba. É a marcha à ré no processo de industrialização da região, uma das mais fortes nesse segmento em todo o país.
Os números da balança comercial mostram quão grave é o processo de perda da participação de produtos de alto valor agregado nas exportações da região.
No sentido oposto, aumenta-se a presença de produtos de baixo valor agregado ou as commodities, como o petróleo bruto.
De acordo com números oficiais do Ministério da Economia, São José dos Campos é a maior exportadora de aviões do Brasil, tendo vendido US$ 792,1 milhões do total de US$ 1,5 bilhão do país entre janeiro e agosto de 2022. Ou seja, 52% do total dos aviões exportados pelo país saem de São José.
Com os veículos, a região tem duas cidades entre as 11 mais exportadoras do Brasil: São José (US$ 281,1 milhões) e Taubaté (US$ 221,5 milhões) nos oito meses deste ano, respectivamente na 8ª e 11ª posição nacional.
No entanto, aviões e veículos perdem participação na balança comercial da RMVale há 10 anos. Em 2012, os dois produtos representavam 71% do total das exportações da região, com petróleo bruto ficando com 2,8% da fatia.
Em 2022, no período de janeiro a agosto, aviões e veículos caíram para 17% da totalidade enquanto o petróleo subiu para 58,7%.
De acordo com economistas, a substituição de produtos de alto valor agregado (aviões e veículos) por commodities (petróleo) na balança comercial comprova o processo de desindustrialização pelo qual vem passando o país, do qual a RMVale é alvo certeiro.
“A desindustrialização afeta toda a cadeia produtiva da região, por causa do efeito cascata. Quando a Ford deixou Taubaté, o emprego nos fornecedores ficou comprometido. O mesmo acontece quando a Embraer exporta menos aviões”, disse o economista Edson Trajano, da Unitau (Universidade de Taubaté).
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HISTÓRICO
O movimento ocorreu mais fortemente na última década, porque entre 2002 e 2012 o efeito foi justamente o contrário.
Em 2002, petróleo representava 10% da balança comercial brasileira e aviões e veículos chegavam a 63%. Dez anos depois, o petróleo caiu para 2,8% e os outros dois produtos passaram para 71%.
Daí em diante é que a balança começou a sofrer o processo de desindustrialização, que se agravou com a crise econômica iniciada em 2014 e coma recessão causada pela pandemia do coronavírus, mas não só.
“Falta uma política industrial ao governo federal. Não há clareza nesse ponto e nem mesmo medidas para reindustrializar o país”, afirmou Trajano.