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Independente, e daí?: Brasil nas primeiras décadas após a Independência

Por Xandu Alves |
| Tempo de leitura: 3 min

O dia seguinte.

O Brasil nas primeiras décadas após a Independência é marcado por uma série de problemas, o mais graves deles a manutenção da escravidão, vergonha histórica para os brasileiros. A nação tornou-se livre de Portugal, mas manteve seus escravizados.

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A desigualdade social também crescia com a maior parte da população pobre e iletrada, além de ameaças de insurreições e conflitos em todo o território, com movimentos separatistas e o risco de ver o país dividido em repúblicas independentes.

O historiador Francisco Sodero explica que, após a renúncia de Dom Pedro 1º, vem o período da regência que é marcado por inúmeros conflitos em vários pontos do Brasil, no Norte e Nordeste, e na cisplatina.

“Foi um período de muita turbulência que só vai terminar em 1842 com a revolução liberal, que foi muito ativa aqui na nossa região”, diz Sodero.

“Nesse período, é o café que vai sustentar o Império. O café é o Vale do Paraíba. Esses fazendeiros e cafeicultores do Vale é que vão dar ao Império o dinheiro e as condições financeiras para mantê-lo”, completa.

Na avaliação da antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz, o contexto da independência não era nada revolucionário.

“Nossa independência não foi revolucionária, tampouco romântica. Foi um golpe das elites em torno do imperador que garantiria não só o não desmembramento do Estado, mas, sobretudo, o sistema escravocrata”, afirma.

Segundo ela, o movimento criou um Estado, mas não criou uma nação, destacando o caráter não popular do processo, ou seja, sem a participação do povo na construção de um país liberto da colonização portuguesa.

“Já na época se dizia que a independência criou um Estado, mas não criou a nação. Isso porque, naquele momento, não existia exatamente o Brasil. O Brasil era uma referência às províncias portuguesas na América do Sul. A tentativa do processo foi criar uma história europeia, masculina, claro, uma história colonial e imperial, como se isso fosse um destino”, diz Lilia.

“Acho que esse é um processo dividido, uma história mal contada. Seria preciso contar essa história por outros lados, nossa independência parece um processo sem povo, ou seja, sem reação. Nossa independência foi uma anomalia dentro das Américas, porque criou uma monarquia cercada de repúblicas. Acho que é o momento de pensarmos o que vamos comemorar agora e também em 2022. Que história nós vamos querer contar?", completa a historiadora.

No ainda inédito livro “1822: café e a jornada da independência”, os autores Francisco Sodero, Diego Amaro e Hamilton Rosa Ferreira confirmam a falta de povo no processo de independência do Brasil.

“Não há como negar, quando nos debruçamos sobre o processo que culminou na nossa emancipação política em 1822 e, mais especificamente, sobre a chamada ‘Jornada da Independência’, é notório a não participação das camadas populares. Em outras palavras, o povo não participou ou foi convidado a se envolver diretamente neste evento tão importante”, afirmam os pesquisadores.

“Mas, dirão muitos, não é novidade em nossa história, esta exclusão das camadas populares das grandes datas da nossa nacionalidade. Basta aqui citar a famosa frase de Aristides Lobo de que ‘o povo assistiu bestializado à Proclamação da República’. Contudo, a proclamação da nossa independência e sua escrita sob a ótica das elites merece uma atenção especial, por sinalizar as grandes linhas que norteariam este processo em nosso país.”

O problema maior era, como se vê, fundar uma nação brasileira, como trata o artigo “Questão nacional e Independência do Brasil: um problema de 200 anos”, do professor do Departamento de História da USP (Universidade de São Paulo), João Paulo Pimenta.

No texto, ele diz que a “dificuldade não só de se estabelecer, mas também de se consolidar esse novo Estado, se revelaria no fato de o Império do Brasil nascer carregado de heranças coloniais portuguesas”.

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