Recordista de homicídios em São Paulo, a RMVale (Região Metropolitana do Vale do Paraíba) está no centro do debate sobre segurança pública travado entre os candidatos Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) na corrida pelo governo do Estado.
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Levantamento exclusivo feito por OVALE, com base em dados da Secretaria de Segurança Pública, mostra que 7 das 10 cidades com as maiores taxas de homicídio do estado estão na região. Entre as 15 primeiras colocadas, 9 estão na RMVale.
A região, desde 2010, tem a maior taxa de homicídios por 100 mil habitantes de todo o território paulista -- são 10,99 mortes por cada 100 mil habitantes, mais do que o dobro do índice registrado na capital paulista (4,22), por exemplo.
OVALE também revelou a existência de uma disputa territorial entre o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho (CV), especialmente em municípios do Vale da Fé e do Litoral Norte, áreas próximas à divisa com o Rio de Janeiro, que concentram 53% dos homicídios na RMVale em 2026.
Foi justamente esse cenário que entrou no discurso de Haddad nesta quinta-feira (3), durante evento de lançamento de seu Programa de Meio Ambiente, em Caraguatatuba. Fazendo referência ao levantamento de OVALE, ele afirmou que “das 15 cidades mais violentas do estado, nove são da região do Vale do Paraíba”.
“Ele [Tarcísio] deveria, primeiro, passar a ler os jornais da região para atestar o que está acontecendo. Segundo, identificar os índices de criminalidade que estão em alta”, disse Haddad ao site Metrópoles.
O candidato do PT ao Palácio dos Bandeirantes afirmou que seu plano de segurança prevê a criação de um gabinete integrado com participação da Polícia Federal e da Receita Federal para combater as organizações criminosas.
Ao falar sobre a presença do Comando Vermelho no Vale, Haddad afirmou que Tarcísio “nega a existência da facção”.
A declaração, porém, contrasta com uma afirmação feita pelo próprio governador em entrevista exclusiva a OVALE, na qual Tarcísio reconheceu a existência de uma disputa territorial entre facções criminosas na região.
Em abril de 2024, Tarcísio afirmou que o Vale é afetado pela tentativa de avanço de organizações criminosas ligadas ao Rio de Janeiro, como Comando Vermelho, Terceiro Comando e o Amigo dos Amigos, sobre o território paulista e pela reação do PCC, facção apontada como hegemônica em São Paulo.
“Isso é um reflexo da proximidade com o Rio de Janeiro. Isso é o crime organizado tentando, com as facções criminosas do Rio de Janeiro, ingressar no território de São Paulo e a contenção da facção hegemônica de São Paulo”, afirmou o governador.
“Eles tentam entrar no território paulista e são contidos, mas aí tem disputa pelos pontos de drogas”, disse.
Na mesma entrevista, o governador relacionou diretamente a disputa entre as facções aos índices de homicídio registrados no Vale.
“É por isso que os índices de homicídios no Vale do Paraíba são muito maiores do que no restante do estado todo. Há uma hegemonia de uma facção no estado todo [PCC] e há uma disputa no Vale do Paraíba”, afirmou.
O levantamento realizado por OVALE, com base nos registros oficiais da SSP, mostra que a RMVale ocupa uma posição excepcional no mapa da violência de São Paulo. Considerando os homicídios registrados entre agosto de 2025 e julho de 2026, a região tem sete das dez maiores taxas de homicídio entre as 100 maiores cidades do estado.
No período, foram registrados 278 homicídios na RMVale, contra 275 nos 12 meses anteriores, alta de aproximadamente 1%.
A cidade com a maior taxa do estado é Lorena, com 23 homicídios e índice de 27,11 mortes por 100 mil habitantes.
A concentração regional também aparece quando o recorte utilizado é ampliado para as 15 maiores taxas de homicídio do estado.
Nove municípios da lista estão na RMVale, reforçando o peso da região no cenário de violência letal de São Paulo.
Além das sete cidades que aparecem entre as dez primeiras, Taubaté, na 14ª posição, e Guaratinguetá, na 15ª, completam a presença do Vale entre os 15 municípios com maiores taxas.
Taubaté registrou 30 homicídios no período e taxa de 9,65 por 100 mil habitantes. Guaratinguetá teve 11 mortes e índice de 9,32. Jacareí aparece na 48ª colocação, com 12 homicídios e taxa de 4,99. São José dos Campos, maior cidade da região, está na 56ª posição, com 32 homicídios e taxa de 4,59 por 100 mil habitantes.
O problema não se restringe a municípios isolados. A própria RMVale apresenta a maior taxa de homicídios entre as regiões do estado.
Nos 12 meses analisados, o índice regional foi de 10,99 homicídios por 100 mil habitantes.
A taxa é mais que o dobro da média estadual, de 5,33, e supera em 160% o índice registrado na capital paulista, de 4,22.
A RMVale também apresenta taxa 44,61% superior à da região de Araçatuba, que aparece na segunda posição estadual, com 7,60 homicídios por 100 mil habitantes.
A região mantém a maior taxa de homicídios do estado desde 2010.