PF encontra sala secreta para guardar dinheiro em hangar
A Polícia Federal encontrou uma sala secreta em um hangar no Aeroporto Internacional de Brasília, utilizado pelas empresas de aviação do advogado Willer Tomaz, amigo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), para armazenamento de dinheiro vivo e uma máquina para contagem de cédulas.
A informação foi publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pela reportagem.
A ação integrou a Operação Sem Desconto, deflagrada em agosto deste ano e autorizada pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça.
Em nota, Willer Tomaz disse que a sala-cofre e os equipamentos instalados no hangar integram a estrutura operacional destinada ao atendimento de empresas de transporte de valores e clientes das empresas de aviação. Afirmou que a sala está submetida a rigorosos protocolos de segurança, controle e custódia, conforme regulamentação.
O advogado afirma que a existência de ambientes protegidos, malotes e máquinas contadoras de cédulas é compatível com essa atividade e não constitui indício de irregularidade. Tomaz diz que é "fantasiosa e beira o ridículo a insinuação de que essas instalações seriam utilizadas para armazenar ou contar dinheiro de origem ilícita".
"Causa perplexidade que a própria Polícia Federal, responsável pela fiscalização do setor de segurança privada, pretenda transformar equipamentos associados a uma atividade lícita em suspeita criminal. Atribuir conotação criminosa a essas instalações, sem qualquer prova, é uma tentativa irresponsável de fabricar suspeitas onde não existem fatos."
Em vídeo publicado no Instagram, Willer reforçou os argumentos e disse que não há relação da sala do hangar com Flávio Bolsonaro.
Durante um desdobramento da Operação Sem Desconto, realizada em 7 de agosto, a Polícia Federal encontrou indícios do uso de dinheiro vivo e estilo de vida luxuoso pelo advogado. Os mandados de busca e apreensão foram realizados, entre outros pontos, nos hangares 36 e 37 da área executiva do aeroporto de Brasília.
Naquele dia, foram apreendidas quatro aeronaves no local, sendo dois helicópteros e dois aviões —todos retidos nos hangares. Os agentes também coletaram listas de passageiros das aeronaves de Willer nos últimos anos e os diários de bordo.
A PF analisa o material durante o intervalo entre a saída e retorno ao hangar para verificar quem usava as aeronaves do advogado, utilizadas em serviços de táxi aéreo.
Após a diligência nos hangares, a PF teria recebido uma denúncia anônima indicando a existência de uma sala secreta utilizada para guardar dinheiro. As equipes voltaram ao local naquela mesma tarde e uma inspeção direcionada revelou indícios de alteração na estrutura de uma das paredes do escritório.
A PF afirma que logo atrás de uma parede de madeira estava escondida uma porta metálica, aparentemente blindada, que dava acesso à sala.
A sala, diz a PF, era estruturada especificamente para o armazenamento seguro de valores. Os investigadores não encontraram quantias em espécie no local, somente equipamentos para guarda e movimentação de dinheiro, como malas vazias para transporte de grandes quantias, máquina de contagem de cédulas e prateleiras.
Segundo o jornal, a PF afirmou em relatório que é preciso investigar se houve retirada de dinheiro do local durante o intervalo entre a saída e o retorno ao hangar. Por isso, foi solicitado um trabalho de perícia para colher impressões digitais e verificar quem usava a sala.
Investigação
Na semana passada, a Polícia Federal enviou ao STF um pedido de inquérito contra Flávio Bolsonaro por suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo Willer Tomaz, também investigado pela corporação por envolvimento com fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
O ministro Alexandre de Moraes foi sorteado para cuidar do caso na corte.
No domingo (18), a campanha de Flávio disse à Folha de S.Paulo que o senador não é investigado no Supremo e que os autos que chegaram ao STF não foram convertidos em inquérito, já que ainda não houve manifestação da PGR (Procuradoria-Geral da República) ou qualquer decisão judicial a respeito.
A investigação teve origem em movimentações relacionadas ao setor de apostas. Na sexta-feira (16), a Folha de S.Paulo mostrou que uma empresa do setor, de propriedade de Willer Tomaz, havia pago voos de Flávio para a Europa em 2025.
A apuração revelou que a empresa atuou como intermediária na compra das passagens aéreas e que teria sido utilizada para custear viagens de caráter pessoal, envolvendo tanto os núcleos familiares de Willer quanto o de Flávio.
Segundo a PF, o senador possuía acesso operacional relevante como usuário master em uma conta bancária pertencente à empresa offshore Alcazar Holding, da qual o advogado é sócio. Em maio de 2025, foi solicitada a exclusão do acesso do parlamentar.
A investigação aponta relação de proximidade entre Willer e Flávio. Entre os registros localizados pela PF, constam referências a festas, encontros e reuniões envolvendo os dois.
Quando questionado pela Folha de S.Paulo sobre as viagens em 16 de outubro, Flávio afirmou que sua relação com Willer é exclusivamente de amizade.
Willer é investigado sob a acusação de fazer repasses de dinheiro obtido em fraudes contra a Previdência no escândalo do INSS. Ele também é dono da Rede Loto, primeira bet a conseguir uma licença de operação no país ainda em maio de 2023, emitida pelo governo do Rio de Janeiro.