SUPERAÇÃO

Após enfrentar barreiras, empresária abre portas para autistas

Por Lara Santiago | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Sampi/Franca
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Daniela Alves ao lado de seu marido Gabriel Alves e a filha do casal
Daniela Alves ao lado de seu marido Gabriel Alves e a filha do casal

A dificuldade para conseguir emprego levou Daniela Alves, empresária à frente da sorveteria Ice by Nice, na avenida Paulo Vl, em Franca, a construir o próprio caminho no empreendedorismo. Formada em Psicologia e diagnosticada com TEA (Transtorno do Espectro Autista) aos 29 anos, ela transformou a experiência de enfrentar barreiras no mercado de trabalho em uma iniciativa de inclusão: atualmente, contrata exclusivamente pessoas autistas para trabalhar no estabelecimento.

A trajetória foi marcada por desafios pessoais, dificuldades financeiras e pela busca por compreender as próprias características. Hoje, Daniela procura oferecer a outras pessoas a oportunidade profissional que demorou a conquistar, com foco no desenvolvimento de habilidades e na autonomia.

Filha de pais que sempre incentivaram os filhos a estudar, apesar das dificuldades, ela destaca a importância da família em sua formação. Casada com Gabriel Souza Alves e mãe, também vê na filha uma motivação para contribuir com mudanças na sociedade.

“Eu realmente quero para a minha filha um mundo um pouco melhor, e vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para construir isso”, afirma.

Diagnóstico tardio

Desde a infância, Daniela percebia diferenças na própria maneira de pensar e agir. Na adolescência, passou por um período de isolamento que, inicialmente, não despertou preocupação no ambiente escolar. Mais tarde, descobriu que já enfrentava um quadro de depressão.

O diagnóstico de autismo veio aos 29 anos, após consultas com diferentes psiquiatras e outros diagnósticos relacionados à saúde mental, como TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), depressão, ansiedade generalizada e síndrome do pânico.

A identificação do TEA ajudou a compreender experiências vividas ao longo dos anos, mas também trouxe questionamentos. Daniela conta que precisou lidar com os próprios preconceitos em relação ao diagnóstico e com a ideia de que suas conquistas pessoais não combinariam com o autismo.

O apoio do marido Gabriel foi importante nesse processo, especialmente para compreender as próprias necessidades e enfrentar os desafios cotidianos.

Dificuldade para entrar no mercado de trabalho

Depois de se formar e se casar, Daniela buscava uma oportunidade profissional. Apesar da vontade de trabalhar, não conseguia avançar nos processos seletivos. A situação chegou a comprometer as condições financeiras do casal.

“Era recém-casada e tinha acabado de me formar; tinha muita vontade e muita necessidade de trabalhar. Nunca imaginei que um dia nós não teríamos o que comer em casa, mas essa chegou a ser a realidade do meu marido e minha”, relata.

Sem conseguir uma vaga formal, começou a prestar serviços na área de organização para a sorveteria, que, na época, era administrada por outro proprietário. O trabalho abriu caminho para uma sociedade e marcou uma nova etapa de sua trajetória profissional.

Com o tempo, os sócios seguiram caminhos diferentes, mas, segundo Daniela, mantiveram uma relação de respeito e amizade. A experiência despertou nela o interesse pelo empreendedorismo como espaço para criar, aprender e desenvolver pessoas.

Sorveteria aposta na inclusão profissional

Atualmente, Daniela contrata exclusivamente pessoas com TEA para trabalhar na sorveteria. A iniciativa ganhou força há alguns anos, quando passou a desenvolver com os funcionários um modelo que chama de “plano de saída”, voltado à identificação de dificuldades, ao fortalecimento de habilidades e à preparação para novas oportunidades profissionais.

A proposta parte da ideia de que o trabalho não deve ser apenas uma ocupação, mas também uma etapa de desenvolvimento da autonomia. A maternidade contribuiu para ampliar essa perspectiva e reforçou o desejo da empresária de agir concretamente para tornar o mercado de trabalho mais inclusivo.

Ao divulgar um vídeo convidando pessoas com diagnóstico de TEA a se candidatarem às vagas, Daniela passou a conhecer histórias de profissionais que buscavam a primeira oportunidade de emprego.

“Hoje estou com pessoas em seu primeiro emprego, que querem aprender e que, assim como eu no passado, só precisavam de uma oportunidade”, afirma.

Na rotina da sorveteria, ela aposta na comunicação clara, no respeito e na construção de um ambiente acolhedor. Também relata ter acompanhado o receio de familiares diante dos desafios que os filhos autistas enfrentam para conquistar independência, inclusive em tarefas cotidianas, como utilizar o transporte público.

Para Daniela, oferecer oportunidades profissionais também significa contribuir para que essas pessoas desenvolvam habilidades e conquistem mais autonomia.

Desafios e planos para o futuro

A trajetória como empreendedora também envolve dificuldades. Daniela descreve a atividade como uma convivência constante com a incerteza e conta que enfrentou crises de pânico durante a pandemia da covid-19. Além disso, relata ter sido alvo de comentários preconceituosos relacionados à saúde mental.

Apesar dos obstáculos, afirma que se orgulha de ter mantido o compromisso com o trabalho e de não ter desistido nos períodos mais difíceis.

Para o futuro, a empresária pretende continuar contribuindo, dentro de suas possibilidades, para ampliar oportunidades e melhorar a realidade de outras pessoas. Mais do que estabelecer grandes metas, ela acredita na importância das ações cotidianas.

“Tenho orgulho de ter tido tanto comprometimento e de não ter desistido, porque sei que não são dias coloridos o tempo todo”, finalizou.

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