TROCA DE LADO

Quem é o 'gay de direita' que, após derrota, pede voto em Lula

Por Anna Virginia Balloussier | da Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução
João Pedro Sastre chegou a postar foto beijando Flávio na bochecha
João Pedro Sastre chegou a postar foto beijando Flávio na bochecha

Flávio Bolsonaro deixou de seguir João Pedro Sastre no Instagram. Os irmãos Eduardo e Carlos Bolsonaro também. Agora que apoia Lula (PT) no segundo turno, o autodeclarado "gay de direita" virou persona non grata entre bolsonaristas. O ranço é mútuo.

"Essa foi a tal direita que me abraçou", o jovem de 24 anos desabafou nas redes sociais, após receber reles 294 votos na eleição para deputado federal. "Adeus, bolsonarismo. Flávio perdeu um soldado."

João Pedro lamentou uma votação tão mirrada, isso após anos sendo fiel escudeiro do bolsonarismo. Então postou uma ilustração dele e de Lula. Legendou-a assim: "Nunca é tarde para termos consciência. Aprendi, na dor, o que é sentir desprezo de parte da direita pelo LGBT. Hoje, depois de tudo que vivi, recalculo a rota".

É o tipo de história que parece até coisa de roteirista. De uma hora para outra, ele passou a receber uma enxurrada de mensagens afetuosas de quem antes via como adversário político.

João Pedro chegou a postar foto beijando Flávio na bochecha e exaltando o candidato que "apoia liberdade de todos", como acreditava na época.

Acabou encorpando o grupo de nomes LGBTQIA+ que, com discursos à direita, não conseguiram se eleger —Sophia Barclay (PL-SP), a "trans de direita", também ficou de fora, e Yoyo Panda (PL-RS), que se apresenta como a "primeira travesti de direita conservadora do Brasil", conseguiu no máximo uma vaga de suplente de deputada estadual no Rio Grande do Sul.

João Pedro não é um total estranho no ninho progressista. Em 2020, aos 18 anos, concorreu pelo PT a vereador em Promissão (SP). Teve 234 votos, só um pouco menos do que obteve agora, numa eleição para um cargo muito maior, de deputado federal. Virou suplente, que é quem substitui o titular caso ele precise se licenciar por algum motivo.

"Mesmo quando eu era de esquerda, nunca fui a favor de liberação de aborto, de drogas", diz à reportagem. A transição para o outro lado do espectro ideológico parecia inevitável. Passada aquela eleição, foi bombardeado por amigos e parentes que o convenceram de que Bolsonaro era o melhor caminho. "Quando a gente convive com pessoas que têm mais um tipo de pensamento, o poder de influência é grande, né?"

Começou a apoiar Jair Bolsonaro (PL), à época presidente, na pandemia. Era a favor de vacinas, ao contrário de Bolsonaro. Em comum com ele: a defesa do tratamento precoce, o chamado "kit Covid", com remédios como cloroquina e ivermectina, que bolsonaristas juravam que funcionavam contra aquele vírus, apesar de evidências científicas de que não.

Viralizou nas redes faz pouco mais de um ano, "porque a família Bolsonaro começou a me seguir", conta. "Fui um apoiador fiel. Tentei aproximar o público LGBT o máximo possível da campanha de Flávio e acredito que consegui."

O eleitorado conservador, contudo, é que não quis papo com ele. "Tive uma decepção muito grande. O resultado me fez sentir na pele uma rejeição que eu já vinha percebendo em relação às pessoas LGBT dentro de determinados setores da direita."

Uma coisa que chamou sua atenção "foi perceber que a grande maioria dos candidatos LGBT eleitos está no campo da esquerda", diz. Gente como Erika Hilton (PSOL-SP), deputada federal mais votada da história do Brasil. "Isso me fez questionar se, de fato, havia espaço para alguém como eu dentro da direita."

Quando defendia Bolsonaro pai, "usava sempre como desculpa este argumento de que ele falava em público o que a maioria da sociedade brasileira falava entre quatro paredes". O ex-presidente já deu declarações homofóbicas. Esta foi em entrevista à Playboy, em 2011: "Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo".

João Pedro diz que sempre foi "uma criança mais afeminada". Com 15 anos, decidiu se abrir com a mãe. "Cheguei e falei que eu não gostava de meninas."

Na adolescência, a orientação sexual não era algo que fazia questão de expor. "Até porque ninguém que é hétero chega falando que é hétero. Era uma coisa muito pessoal." Quando deixou o interior de São Paulo, sentiu-se mais à vontade para falar do assunto publicamente. "Parece que minha cabeça abriu mais."

Não sabe dizer se, no campo moral, sempre vestiu a camisa conservadora. Era contra legalizar aborto e drogas. Até o cigarro eletrônico que amigos fumavam lhe causava aversão. "Tinha horror àquilo."

Estudante de direito, ele trancou a faculdade para se dedicar à eleição. Declara-se um espírita sem qualquer "dominação religiosa", e alguém disposto a rever antigas posições. Uma delas é repensar se cabe à mulher decidir se deve ou não abortar um filho indesejado. "Hoje tô aberto para entender e estudar melhor as coisas com mais profundidade. Costumo dizer que a gente não muda assim da noite pro dia."

Uma coisa ele mudou rapidamente: excluiu da sua conta no Instagram a alcunha "gay de direita". Agora é só João Pedro Sastre.

Faz também um cálculo eleitoral. Perdeu o pleito, ok, mas ele celebra a vitória na métrica virtual. "Agora que passei a apoiar Lula, achei que ia ter uma rejeição muito grande. Pelo contrário. Tô sendo abraçado pela esquerda. Seguidores que demorei um ano pra conquistar, em 23 dias consegui mais. Tô com mais de 230 mil seguidores."

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