CARREIRA ACADÊMICA

Quase metade dos professores universitários mudou de emprego

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação
Estudo da Unicamp mostra que quase metade dos docentes do ensino superior mudou ou acumulou vínculos entre 2003 e 2021.
Estudo da Unicamp mostra que quase metade dos docentes do ensino superior mudou ou acumulou vínculos entre 2003 e 2021.

A imagem de uma carreira universitária marcada por longa permanência em uma única instituição não corresponde à trajetória de boa parte dos docentes brasileiros. Um estudo liderado por pesquisadores da Unicamp mostra que 46,9% dos professores do ensino superior passaram por ao menos um episódio de mobilidade empregatícia entre 2003 e 2021.

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Essa mobilidade inclui tanto a saída de uma instituição para ingresso em outra quanto o acúmulo simultâneo de vínculos em diferentes universidades, faculdades ou centros universitários. A pesquisa foi liderada por Ana Maria Carneiro, coordenadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP), e publicada na revista Research in Higher Education.

O trabalho acompanhou trajetórias profissionais em instituições públicas e privadas de todo o país e identificou quatro padrões principais: vínculo único, acúmulo de cargos, transição entre instituições e mudança com interrupção temporária do emprego.

Mobilidade é maior no setor privado

Os dados mostram que a movimentação dos docentes não ocorre de forma homogênea.

Instituições com forte atividade de pesquisa e pós-graduação, como grandes universidades públicas, apresentam menores índices de mobilidade. Já faculdades e centros universitários privados, além de instituições públicas mais voltadas ao ensino, registram maior rotatividade.

Segundo os pesquisadores, em parte do setor privado a mudança de emprego ou o acúmulo de contratos não representa necessariamente uma busca por melhores condições profissionais. Em muitos casos, está associado à necessidade de compor renda entre diferentes instituições.

“Grande parte dessas mobilidades no setor privado ocorre como uma forma de buscar sobrevivência, mais do que buscar melhores condições de trabalho. Sobrevivência no sentido de garantir um salário”, afirma Carneiro.

Expansão das federais impulsionou mudanças

O estudo identificou um pico de movimentação entre 2007 e 2014, período que coincidiu com a expansão das universidades federais por meio do Reuni.

A abertura de novos campi, vagas e concursos, principalmente fora dos grandes centros, ampliou as oportunidades e incentivou deslocamentos de professores pelo país.

Mesmo assim, a maioria das mudanças ocorreu em distâncias relativamente curtas. O levantamento aponta que boa parte dos deslocamentos acontece dentro da mesma região ou do mesmo estado, frequentemente em trajetos de até 50 quilômetros.

Esse padrão é particularmente comum em regiões metropolitanas e entre municípios vizinhos. Sul e Sudeste concentram maior volume de movimentações, acompanhando também a concentração de instituições de ensino superior nessas regiões.

Mulheres se deslocam menos

O levantamento também encontrou diferenças importantes entre homens e mulheres.

Segundo a pesquisa, as professoras percorrem distâncias menores nas mudanças de emprego. Há ainda diferenças relacionadas à duração dos contratos e à remuneração.

Mulheres que tiveram licença-maternidade no primeiro emprego analisado apresentaram, em média, menor valor de hora-aula e vínculos de menor duração, segundo os resultados do estudo.

Os pesquisadores também encontraram diferenças na distribuição por tipo de instituição. Homens aparecem com maior frequência em instituições tecnológicas ou intensivas em pesquisa, enquanto mulheres têm presença proporcionalmente maior em instituições focadas no ensino de graduação.

Salário nem sempre explica mudança

Outro resultado contraria uma interpretação simples sobre mobilidade profissional.

A remuneração maior não aparece sempre como o principal motivo para mudar de instituição. Em transições do setor privado para o público, por exemplo, docentes podem aceitar redução salarial inicial em troca de estabilidade e outras condições de trabalho.

No setor privado, por outro lado, professores remunerados por hora frequentemente acumulam empregos em diferentes instituições.

Para os pesquisadores, isso mostra que a mobilidade acadêmica brasileira envolve uma combinação de fatores como estabilidade, localização, oportunidades de concurso, tipo de instituição e necessidade de composição de renda.

Pesquisa analisou dados oficiais de emprego

Para reconstruir as trajetórias, a equipe utilizou microdados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho e Emprego.

A escolha permitiu acompanhar vínculos formais de professores do ensino superior ao longo de quase duas décadas e superar limitações de bases acadêmicas internacionais, que alcançam apenas uma parcela dos docentes brasileiros.

O trabalho foi desenvolvido pelo Laboratório de Estudos sobre a Organização da Pesquisa e da Inovação da Unicamp (Lab-Geopi), dentro do projeto Pesquisa da Pesquisa e da Inovação, financiado pela Fapesp.

Os resultados também levaram os pesquisadores a integrar a quarta rodada do consórcio internacional Future Academic Profession, que estuda as transformações da carreira docente em diferentes países.

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