TRAGÉDIA EM VINHEDO

Cenipa aponta 19 fatores na queda de avião da Voepass

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação/SSP
Documento aponta falhas da tripulação, problemas internos da companhia e fiscalização insuficiente antes do acidente que matou 62 pessoas.
Documento aponta falhas da tripulação, problemas internos da companhia e fiscalização insuficiente antes do acidente que matou 62 pessoas.

O relatório final sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo identificou 19 fatores que contribuíram para o acidente, entre falhas operacionais da tripulação, problemas na organização da companhia aérea e limitações na fiscalização realizada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

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O documento foi divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), quase dois anos depois da queda que provocou a morte das 62 pessoas que estavam a bordo.

A investigação concluiu que os pilotos tinham acesso à previsão de formação de gelo severo na rota. Uma tripulação que havia realizado um voo anterior também teria constatado o fenômeno, mas a informação não foi registrada nem repassada para o setor responsável pelo despacho da aeronave.

Ao analisar os três voos anteriores ao acidente, o Cenipa verificou que tripulações diferentes deixaram de anotar ocorrências técnicas no diário de bordo. A constatação levou os investigadores a ampliar o levantamento para 1.206 voos da frota.

Segundo o tenente-coronel Paulo Fróes, responsável pela investigação, a omissão de informações havia se tornado uma prática recorrente dentro da companhia, reduzindo a possibilidade de adoção de medidas como reparos, manutenção corretiva ou substituição da aeronave.

“O que a gente está falando sobre não reporte no diário de bordo se chama normalização do desvio. Quando a gente fez a análise dos voos menos um, menos dois e menos três, três tripulações diferentes executando normalizações de desvio dentro daqueles três voos diferentes. E, por esse motivo, nós fizemos uma análise mais ampla, aqueles 1.206 voos, e notamos que não só essas três tripulações, mas outras demais tripulações também executavam esse tipo de procedimento, onde a gente viu que isso era uma cultura organizacional”.

Fiscalização da Anac

O relatório também analisou a atuação da Anac antes do acidente. De acordo com o Cenipa, fiscalizações realizadas entre 2022 e 2024 já haviam identificado fragilidades na manutenção da Voepass.

Entre os problemas estavam panes não registradas nos diários de bordo, uso de ferramentas inadequadas e reparos executados em bases sem estrutura compatível com os serviços necessários.

A agência chegou a aplicar sanções, como suspensões de rotas, profissionais e aeronaves. Para a comissão de investigação, porém, as providências não foram suficientes para reduzir os riscos e impedir que a empresa continuasse operando nas mesmas condições.

“Foi adotada uma série de sanções pela agência, dependendo, logicamente, da complexidade do que eles identificavam na empresa. A título de exemplo, suspensão de rotas, de pessoal e de algumas aeronaves. Foram feitas, portanto, diversas ações de fiscalização e ações sancionatórias. Entretanto, a comissão de investigação concluiu que, infelizmente, essas ações não foram suficientes para mitigar os riscos encontrados na empresa, o que permitiu a continuidade da operação”, afirmou Raphael Vilar, chefe da Divisão de Investigação do Cenipa.

Em nota, a Voepass declarou que a queda representou o momento mais difícil de sua história, informou que mantém assistência psicológica aos familiares das vítimas e afirmou ter colaborado com a investigação desde o início.

O relatório do Cenipa tem caráter preventivo e não estabelece culpados nem define responsabilidades civis ou criminais. As conclusões poderão, no entanto, subsidiar o inquérito conduzido pela Polícia Federal e os trabalhos de uma comissão do Congresso que acompanha o caso.

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