Mulher vê ossos e crânio expostos ao visitar cemitério; VÍDEO
A autônoma Izabella Oliveira, 34, afirma ter visto ossos e crânios espalhados em uma área do cemitério da Vila Formosa, zona leste de São Paulo. Em um vídeo gravado no feriado de 9 de Julho, ela relata que o local está passando por escavações. Embora a concessionária tenha afirmado que as filmagens foram feitas em áreas isoladas, a prefeitura de São Paulo diz que vai investigar o caso.
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Izabella diz que foi avisada da movimentação por uma pessoa responsável pela manutenção do jazigo. "A gente paga uma jardineira todos os meses e foi ela quem nos avisou para vir com urgência porque começaram a escavar a quadra 62, que era onde meu pai estava", conta.
Valas estavam abertas, a terra revirada e restos mortais, incluindo ossos e um crânio, estavam expostos. Izabella relatou que visita o local com frequência desde 2020, ano em que seu pai morreu.
Ela critica a falta de cuidado no manejo dos restos mortais e cita que não foi a única vez que presenciou a cena. "Todas as vezes que vim aqui, eu vi esse cenário. Não foi pontual dessa visita. Venho sempre visitar o túmulo do meu pai e tem bastante osso e crânio espalhado", diz em entrevista ao UOL.
Concessionária responsável pelo cemitério esclareceu que as imagens registradas por Izabella não representam todos os procedimentos técnicos. "A gravação foi realizada em uma área de obra devidamente sinalizada e isolada, com acesso restrito às equipes autorizadas, não sendo permitida a circulação do público", disse a Consolare ao UOL.
João Batista Oliveira foi enterrado quando a administração do cemitério da Vila Formosa ainda era pública. O local foi concessionado em 2023 e, desde então, é administrado pela Consolare.
"Antes eu achava um pouco mais organizado. Depois da privatização, agora basicamente é tudo dinheiro. A segurança, a limpeza, a organização e a quantidade de mato alto dentro do cemitério pioraram bastante", disse Izabella Oliveira.
O túmulo do pai de Izabella ainda não havia sido atingido pelas escavações quando ela esteve no local. Ela diz acreditar que isso poderia ocorrer caso demorasse mais alguns dias para comparecer ao cemitério. "Se eu tivesse demorado mais de uma semana, muito provavelmente eles teriam escavado ali", diz.
Ela afirma ainda que só foi procurada pela administração do cemitério dias depois da repercussão do vídeo. "Depois que publiquei o vídeo na internet e ele viralizou, cerca de quatro dias depois me mandaram um e-mail pedindo para comparecer à administração. Mas eu já tinha vindo aqui e já tinha marcado essa exumação."
Consolare nega que a familiar não teria sido previamente comunicada da exumação do corpo do pai. A empresa afirma que o chamamento formal para acompanhamento da exumação foi encaminhado por e-mail em 7 de julho, o que Izabella desconhece.
"Embora a convocação dos familiares não seja requisito para a realização da exumação nos jazigos por prazo determinado, a Consolare realiza esse contato sempre que dispõe de cadastro atualizado, permitindo o acompanhamento do procedimento como medida de transparência, acolhimento e respeito às famílias, iniciativa que vai além das exigências aplicáveis. A Consolare reitera que todos os despojos provenientes das exumações são individualmente identificados, acondicionados em recipientes apropriados e armazenados de forma segura, conforme os protocolos técnicos adotados pela concessionária", disse a Consolare, em nota.
A filha precisou comprar um ossário dentro do cemitério municipal para destinar os restos mortais do pai. Ela afirma que o corpo já havia passado por uma exumação anterior e que, em razão das intervenções na quadra, teve de antecipar o novo procedimento. Os custos envolveram cerca de R$ 900 pela exumação e entre R$ 2.500 e R$ 3.000 pela compra do ossário.
Auditoria encontrou ossadas expostas em dez cemitérios de São Paulo. Em 2024, um relatório do TCM (Tribunal de Contas do Município) encontrou ossadas humanas expostas não identificadas e restos de materiais funerários misturados à terra em escavações de dez cemitérios da capital concedidos à iniciativa privada desde março de 2023.
Segundo o relatório, as irregularidades foram constatadas durante vistorias de auditores do órgão. O documento aponta que as empresas responsáveis pela administração dos cemitérios executam obras nas quadras gerais para a construção de nichos e columbários. De acordo com os auditores, as intervenções ocorreram sem a realização prévia das exumações necessárias, o que teria provocado a exposição de restos mortais.
Equipes encontraram encostas revolvidas por retroescavadeiras com esqueletos humanos aparentes. No Vila Formosa, os auditores registraram um crânio solto sobre o solo. Representantes das concessionárias não conseguiram comprovar a destinação das ossadas retiradas das áreas escavadas, diz o TCM.
Prefeitura de São Paulo diz que vai investigar o caso. Em nota, a agência SP Regula afirmou que instaurou um procedimento administrativo para apuração do caso mencionado pela reportagem. "A Quadra 62 do Cemitério Vila Formosa está atualmente restrita ao uso de funcionários autorizados e sendo utilizada como área operacional para serviços de exumação e limpeza. Esse trabalho deve seguir os protocolos estabelecidos pela agência."
Fiscalização é feita com frequência, segundo a gestão municipal. "A SP Regula fiscaliza permanentemente os serviços funerários e cemiteriais concedidos por meio de vistorias, além do acompanhamento da execução contratual, apuração de reclamações, inspeções em campo e adoção das medidas administrativas pertinentes sempre que constatadas irregularidades", diz nota.
As exumações são executadas por equipes especializadas, seguindo protocolos, segundo a Consolare. A concessionária citou que as imagens registradas durante uma fase intermediária da operação e em local devidamente isolado e sinalizado como em obras não refletem a conclusão do procedimento nem evidenciam qualquer irregularidade na sua execução.