Cães da GCM paulistana viram apoio na localização de cadáveres
Uma mãe à procura de um filho desaparecido. Um terreno baldio com corpos em valas. Um deslizamento de terra com prováveis soterrados. Ações como essas precisam de apoio especializado, encontrado no Canil da GCM (Guarda Civil Metropolitana) de São Paulo.
A unidade está localizada na Vila Guilherme, zona norte de São Paulo. São 27 cães, e cada um tem a sua baia. Os treinos diários acontecem pela manhã. À tarde, os animais vão às ruas para auxiliar nos patrulhamentos.
Das mais variadas raças, mas principalmente pastor-alemão e pastor-belga-malinois, esses cães embarcam nas viaturas com seus condutores sem saber o destino, mas atrás do sucesso no trabalho.
"Atualmente, a guarda atua em duas ações. Em busca de uma jovem em Guarujá [cidade na Baixada Santista], que teria sido sequestrada após trocar de facção criminosa. E de um policial civil sumido em São Bernardo do Campo [no ABC paulista]", conta o inspetor de divisão Alexandre Rodrigues, 53, comandante do canil.
No final de maio, o canil foi acionado para auxiliar uma outra equipe de guardas-civis metropolitanos em Heliópolis, na zona sul. O chamado foi para um terreno da Sabesp conhecido pela desova de corpos.
Três cadáveres foram encontrados em pontos distintos, eles estavam envoltos em cobertores. No dia seguinte, a Polícia Civil localizou um quarto corpo.
Há um ano, em 27 de junho, 15 ossadas foram localizadas com apoio dos cães em uma área de mata às margens da represa Billings, no Jardim Apurá, na zona sul. Suspeita-se que as vítimas tenham sido mortas no chamado tribunal do crime, onde são "julgadas" por criminosos.
O trabalho de detecção é realizado com uma rotina diária de treinos. Os animais possuem uma memória longa —chamada de assinaturas— de entorpecentes e restos mortais, mas uma memória curta em casos específicos, com odores da pessoa. Assim, é necessário provocá-los, fazendo contato com peças de roupas ou outros objetos.
Foi com essa estratégia que os guardas tentaram refazer os passos do empresário Adalberto Amarílio dos Santos Junior, 35, encontrado em um buraco no autódromo de Interlagos, na zona sul, em 3 de junho do ano passado. Ele havia ido a um evento no local no dia 30 de maio.
O pastor-belga-malinois Conan, 7, foi o responsável pelo trajeto. Ele, que chegou à GCM ainda filhote, está se aproximando da aposentadoria.
"Em Interlagos, usamos a roupa dele [vítima] já sem vida para fazer o trajeto por onde passou", explicou a GCM classe especial Michelle Drauzdauskas, 52, a condutora do animal, policial com grande experiência com cães de detecção.
Anos antes, Conan participou de uma busca em um cemitério clandestino no Parque Savoy City, na zona leste, onde localizou três cadáveres. Conan, ao se aposentar, pode ficar, preferencialmente com Drauzdauskas, com outro guarda do canil ou ir para adoção.
Outras ações em que os cães da GCM estiveram foram nas chuvas do verão de 2023 em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, onde auxiliaram no encontro de 11 corpos em um único dia e na localização do cadáver de uma mulher que havia sido emparedada em uma residência, contam os guardas.
O feito dos animais tem alcançado outras prefeituras, que buscam a expertise de São Paulo para treinar seus cães.
Durante os trabalhos, pode haver revezamento dos animais. O tempo médio de ação é de uma hora, para que não se tenha exaustão. Em dias mais quentes, a atividade diminui. Além do clima, as condições geográficas do terreno também são outro fator que pode interferir na atuação.
Para os cães, o sucesso no trabalho rende uma bolinha para brincar e petiscos. "É o momento extraordinário para o cão", diz o inspetor Rodrigues.