INVESTIGAÇÃO

Mulher que se passou por criança pode ter feito vítimas no PR

Por Mauren Luc | da Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução
Amanda Maria Souza de Oliveira foi reconhecida por supostas vítimas de outros casos semelhantes
Amanda Maria Souza de Oliveira foi reconhecida por supostas vítimas de outros casos semelhantes

Presa no último dia 2 em Joinville (SC) após enganar uma família por 14 meses, Amanda Maria Souza de Oliveira foi reconhecida por supostas vítimas de outros casos semelhantes em Colombo e Campina Grande do Sul, cidades da região metropolitana de Curitiba.

A prisão da mulher que fingia ter 12 anos em Santa Catarina fez a Polícia Civil do Paraná retomar as investigações do caso de Colombo, onde chegou a ser feito um registro formal às autoridades.

A apuração sobre a denúncia de estelionato estava parada. Mas, com as novas informações, a polícia paranaense intimará supostas vítimas para confirmação de golpes. Em Campina Grande do Sul, não houve registro de boletim de ocorrência.

O advogado de Amanda, Rafael Siewert, diz que a defesa identificou elementos que justificam o pedido de um exame de sanidade mental, "para avaliação de sua condição psíquica".

Presa preventivamente, ela passará por perícia até o fim de junho, o que "poderá contribuir para o adequado esclarecimento das circunstâncias relacionadas ao caso e para a adoção das medidas processuais cabíveis", diz ele.

Uma professora diz ter sido enganada durante a pandemia e uma casa de acolhimento recebeu a falsa criança por uma semana em 2020. Nas duas situações, a mulher, que atualmente tem 38 anos, dizia ter 12.

Em Campina Grande do Sul, a rede de proteção do município diz ter reconhecido Amanda pelas fotos que passaram a circular na imprensa após sua prisão neste mês.

Ela teria chegado à cidade em 16 de novembro de 2020, dizendo ter pegado carona com um caminhoneiro em Fortaleza para fugir do pai, dono de um bordel em que explorava ela e sua mãe.

A falsa adolescente procurou ajuda em uma igreja evangélica, que acionou o Conselho Tutelar. Apresentando o nome de Júlia, teria dito que a mãe tinha morrido havia pouco tempo e que tinha fugido só com a roupa do corpo, mostrando hematomas e marcas de queimaduras de cigarro na pele.

Ela foi encaminhada para a Casa de Acolhimento Anjo da Guarda, no mesmo município, onde permaneceu por sete dias. Conforme relato da instituição, ela justificava o corpo adulto alegando ter usado hormônios na infância, aplicados pelo pai, que, segundo contava, a levava para rituais de magia negra. Foi a mesma justificativa apresentada no caso recente de Joinville.

"Ela não aparentava ter 12 anos, mas a história e o horror que trazia nos relatos de vida faziam a gente acreditar e acolher", disse a coordenadora do abrigo, Evelyn Moraes.

A presidente do local, Andreia Ramos, conta que começaram a desconfiar já no segundo dia. "Nos chamou a atenção o fato de ela não querer estar perto dos outros adolescentes, apenas das crianças pequenas."

Ela foi encaminhada para um hospital da região por ter agulhas sob a pele, ficou dois dias internada na ala pediátrica, até ser descoberta e fugir.

O secretário de Desenvolvimento Social de Campina Grande do Sul, Felipe Veiga, confirma o acolhimento da mulher pela rede de proteção municipal da época, assim como histórias apresentadas por ela, "muito semelhantes às que contou em Santa Catarina".

Ele afirma que a falsa idade foi descoberta no hospital e a polícia acabou acionada. "Mas ela fugiu antes da chegada dos policiais."

Grupo de orações

Em Colombo, o contato foi virtual, em 2021, segundo um grupo de orações. A mulher teria relatado ter câncer em estado terminal, pedindo para morrer.

"Ela entrou ao vivo, pegou a gente de impacto e eu mordi a isca. Entrei em contato com a mãe, que era ela mesma, para ajudar. Foi aí que começou tudo", conta a professora Tatiane Silva, que mais se envolveu com a mulher, que também dizia ter 12 anos.

Tatiane estava fragilizada pela recente morte da cunhada grávida, vítima da Covid. Por isso, diz ter acreditado na história da suposta adolescente com leucemia. A professora afirma que a suspeita usava o nome de Emily, se conectava todas as noites com o grupo e até rezava o terço para pedir sua cura.

"No dia que ela falou que o transplante de medula havia dado certo, andamos 15 quilômetros até o Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro para pagar promessa."

Para fingir a idade, a mulher supostamente usava filtro de imagem, estava sempre de touca e máscaras. Sua voz era infantilizada, seus jeitos de criança e suas histórias muito tristes, envolvendo abandonos e abusos, conforme os relatos.

"Emily" passou a fazer parte dos momentos felizes da família da professora, como aniversários e comemorações.

"Ela não pedia dinheiro, era carente, então dávamos atenção. Fiz videochamadas, camiseta, cartazes, até uma tatuagem, que depois eu cobri."

A farsa só começou a ser descoberta quando a menina mentiu que tinha amputado o braço, mas o deixou aparecer em um momento do vídeo. Pouco tempo depois, veio o pedido de Pix. Foi então que o grupo decidiu ir atrás dela e descobriu a mentira.

Reabertura do inquérito

A advogada do grupo, Caroline Rangel, disse que, após os reconhecimentos feitos pelas vítimas, ela solicitou a retomada do inquérito pela Delegacia de Colombo, que apurava a denúncia de estelionato.

A Polícia Civil do Paraná disse, em nota, que instaurou inquérito, mas que não foi possível chegar à autoria do crime.

"Com o surgimento de novas informações a partir da prisão em Santa Catarina, a Polícia Civil do Paraná intimará as vítimas de Colombo para que façam o procedimento de reconhecimento da suspeita."

No caso recente de Joinville, Amanda foi denunciada pelo Ministério Público de Santa Catarina por estelionato e falsa identidade.

"A estratégia permitiu que ela fosse acolhida pelas vítimas, que passaram a custear integralmente sua subsistência, incluindo moradia, alimentação, transporte, comemoração de aniversário e até medicamentos de alto custo para emagrecimento", aponta a Promotoria, em nota.

Segundo as investigações em Santa Catarina, Amanda teria adotado condutas similares no Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e em duas cidades catarinenses, estado onde responde a uma ação penal.

Comentários

Comentários