Explosão no Jaguaré, em SP, completa um mês com ruas esvaziadas
Um mês após a explosão que matou duas pessoas e destruiu parte da comunidade Nossa Senhora das Virtudes II, no Jaguaré, zona oeste de São Paulo, moradores ainda convivem com os efeitos da tragédia.
Casas interditadas seguem cercadas por tapumes, montes de entulho permanecem onde estavam no dia do acidente e comerciantes relatam queda de até 80% no movimento em uma região que perdeu boa parte de seus moradores.
O cenário encontrado nesta semana pouco lembra uma área em reconstrução. Imóveis aguardam definições sobre demolição, equipes seguem realizando medições para avaliar as condições do solo e parte das ruas permanece esvaziada.
Em alguns trechos, varais com roupas dividem espaço com casas vazias e construções interditadas, enquanto moradores tentam retomar uma rotina interrompida desde 11 de maio.
A explosão ocorreu durante uma obra envolvendo redes subterrâneas de saneamento e gás canalizado. O acidente causou a morte do segurança Alex Sandro Fernandes Nunes, 49, e do pintor autônomo Francisco Bondemba da Silva, 57, conhecido na comunidade como Bodenga. Dezenas de imóveis foram atingidos e famílias precisaram deixar suas casas.
Desde então, moradores aguardam definições sobre reparos, indenizações e o futuro das residências que permanecem interditadas. A líder comunitária Ana Cristina Gomes afirma que parte das promessas feitas após o acidente ainda não foi cumprida.
"Entregaram alguns apartamentos e algumas indenizações foram pagas, mas muita gente continua abandonada. Tem moradores atrás de laudo que não receberam e pessoas com medo de permanecer dentro de casa por causa das rachaduras", afirma.
Ela relata que muitas famílias continuam inseguras até mesmo em imóveis que não foram interditados. "Tem uma casa interditada, a outra não. Mas elas dividem parede. Como vai demolir uma e deixar a outra?", questiona.
Gomes também reclama da qualidade de parte dos reparos realizados. "Eles passam reboco, mas a rachadura volta. Tem telhado que continua pingando. Tem forro que cai de novo."
A sensação de abandono também atinge quem depende do movimento da comunidade para trabalhar. A comerciante Atelice Olegário de Souza, 53, afirma que perdeu cerca de metade da clientela desde a explosão.
"Aqui você olha para a rua e não tem ninguém. Metade das pessoas foi para hotel, outras foram para apartamento. Tem mais de 20 casas interditadas. A gente vai vender para quem?", diz.
O impacto também é sentido por Tarsiano Fernandes Lima, 42, proprietário de uma pizzaria na região. O estabelecimento ficou cerca de 15 dias fechado após a explosão. "A gente está tentando retornar, mas o movimento caiu mais de 80%. Se continuar assim, não conseguimos manter aluguel, água e luz", afirma.
A Sabesp afirma que mantém uma operação permanente de assistência e reparação às famílias atingidas. Segundo a companhia, 804 pessoas receberam auxílio emergencial de R$ 5.000, o que representa um desembolso de cerca de R$ 4,5 milhões.
Mais de 180 profissionais, entre assistentes sociais, engenheiros, psicólogos e especialistas técnicos, seguem atuando no atendimento aos moradores.
Segundo a vice-presidente de Relações Institucionais e Sustentabilidade da companhia, Samanta Souza, 44 famílias já tiveram soluções habitacionais encaminhadas, incluindo apartamentos da CDHU, indenizações, cartas de crédito e aluguel temporário.
Ela afirma que a maioria das famílias já definiu qual alternativa pretende seguir e que os casos pendentes se concentram principalmente em moradores que ainda avaliam as opções disponíveis.
"Temos uma pequena parcela, entre 10% e 15%, que ainda não definiu qual encaminhamento deseja. As demais famílias já fizeram suas escolhas e tiveram suas soluções encaminhadas", afirma.
Sobre as críticas relacionadas a imóveis interditados e reparos, Samanta diz que a classificação das residências foi realizada pela Defesa Civil. Segundo ela, os imóveis considerados aptos para retorno receberam os reparos necessários e apenas duas casas solicitaram uma nova avaliação técnica.
"Dos imóveis que demandaram adequações, restam duas casas que pediram uma nova avaliação para que os moradores se sintam mais seguros para retornar. Os demais processos estão encaminhados", afirma.
A companhia também rebate as reclamações de comerciantes que afirmam não ter recebido compensações financeiras. Conforme a executiva, todos os estabelecimentos que procuraram a empresa alegando prejuízos receberam um adiantamento de R$ 15 mil referente a lucros cessantes.
"Todos os comerciantes que apresentaram essa demanda receberam uma parcela de adiantamento enquanto fazemos a análise detalhada de cada caso", afirma.
A Comgás informou por meio de nota, que mantém diálogo permanente com a comunidade e que continua trabalhando em conjunto com as autoridades para atender as demandas das famílias atingidas.
A concessionária afirmou ainda que segue prestando suporte e atendimento social individualizado aos moradores impactados pela explosão.
Enquanto moradores aguardam respostas sobre moradia, indenizações e reparos, as investigações sobre a explosão seguem em duas frentes.
A investigação criminal é conduzida pelo 93º Distrito Policial (Jaguaré). Em nota, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que os laudos periciais continuam em elaboração e serão analisados pela autoridade policial quando concluídos.
Paralelamente, o Ministério Público instaurou um segundo inquérito relacionado ao caso. Diferentemente da apuração que busca esclarecer as causas e responsabilidades pela explosão, o novo procedimento pretende verificar se os protocolos de segurança adotados pela Sabesp em obras subterrâneas são suficientes para prevenir acidentes semelhantes e se há falhas estruturais nos mecanismos de prevenção e gerenciamento de riscos.
Questionada sobre a nova investigação, a vice-presidente afirmou que os protocolos existentes à época do acidente foram cumpridos, mas informou que realizou uma revisão de procedimentos e reforçou mecanismos de fiscalização e monitoramento.
Às vésperas de completar um mês da tragédia, moradores afirmam que o sentimento predominante é de incerteza. Neste ano, a comunidade planejava decorar as ruas para acompanhar a Copa do Mundo. Os planos foram abandonados.
"A gente estava vendo material para pintar a rua e colocar bandeiras. Mas que clima a gente tem para enfeitar a rua? Metade da rua está interditada. A gente perdeu nossos amigos. Não tem o que comemorar", diz Ana Cristina Gomes.