OPINIÃO

Saúde não pode depender de quem grava melhor

Por Marília Martins | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução/TJSP

Que a política está desacreditada, já sabemos. Mas o que leva um parlamentar a causar tanta confusão, transformando o próprio mandato em um verdadeiro show de horrores? Seriam os “likes” nas redes sociais? Desconhecimento sobre a própria função?

Em um país com baixa educação política, abre-se espaço para que até os mais despreparados ocupem cadeiras importantes, levando para o espetáculo aquilo que deveria ser tratado institucionalmente — com responsabilidade e seriedade — na resolução dos problemas da população.

Em ano eleitoral, as vitrines ganham novos elementos, principalmente a abordagem agressiva com roupagem “antissistema”. No fundo, porém, trata-se do velho método: contar com a desinformação das pessoas para validar uma narrativa. Explico.

O papel de um vereador é legislar, fiscalizar, representar e investigar. O artigo 31 da Constituição Federal estabelece que a fiscalização do município é exercida pelo Poder Legislativo, mediante controle externo. No entanto, esse poder não autoriza vereadores a invadir áreas restritas, constranger pacientes ou servidores, atrapalhar atendimentos ou violar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), expondo pessoas e ambientes sensíveis. Muito menos legitima abuso de autoridade, como confrontar trabalhadores para gerar conteúdo nas redes sociais.

O caos da saúde e o oportunismo político

Antes de apontar culpados, é preciso compreender os fatores que fazem de Franca um epicentro do caos na saúde pública.

Há uma divisão de responsabilidades pouco conhecida pela população: o município, sob gestão do prefeito, responde pela atenção básica (UBS) e pelas unidades de urgência e emergência (PS, PSI e UPAs). Já o Estado, sob o governo estadual, é responsável pela média e alta complexidade — ou seja, pelas vagas para internações, cirurgias e atendimentos mais graves, muitas delas concentradas na Santa Casa.

Franca ainda assume o atendimento de internação de pacientes vindos das 23 cidades da região administrativa, o que sobrecarrega ainda mais o sistema.
As Unidades Básicas de Saúde não são tratadas como deveriam: faltam especialistas, consultas demoram meses, exames podem levar anos. Doenças simples evoluem para quadros graves, exigindo intervenções mais caras e complexas. Sem investimento consistente em prevenção, a conta nunca fecha.

Nos prontos-socorros, o cenário é de colapso permanente. Após a pandemia, a situação piorou significativamente. Pacientes permanecem dias em locais improvisados, que não deveriam abrigá-los por mais de 12 horas. Há alas com apenas um banheiro e um chuveiro; em 24 horas, apenas duas refeições são garantidas - e, quando há café da manhã na UPA, muitas vezes é fruto da solidariedade dos próprios funcionários.

Enquanto isso, profissionais da saúde - antes chamados de heróis - seguem sem plano de carreira, valorização salarial ou apoio à saúde mental. Adoecem em silêncio, enquanto são pressionados e expostos, muitas vezes por aqueles que deveriam defendê-los. Recentemente este tipo de abordagem estimulou até mesmo agressões físicas contra servidores nas UPAs, por parte de munícipes.

A regulação de vagas para internação segue critérios técnicos. O Protocolo de Manchester classifica os pacientes por gravidade, não por ordem de chegada. Esse processo é registrado no sistema CROSS, que define prioridades com base em avaliação médica. Isso significa que ninguém “fura fila”. Quem promete vaga está mentindo. Quem interfere, comete crime.

Mas como resolver o problema?

Invadir unidades de saúde e constranger trabalhadores não resolve absolutamente nada. O que resolve é pressionar quem tem a responsabilidade e a caneta na mão para ampliar o financiamento e a oferta de vagas.

Curiosamente, há vereador alinhado ao governo estadual que, em vez de cobrar soluções concretas, prefere gravar vídeos e alimentar as redes sociais. O prefeito, também da mesma base, apesar de investir acima do mínimo constitucional, poderia liderar uma articulação regional com outros prefeitos para exigir medidas emergenciais.

O que não resolve é transformar a saúde em palco, os profissionais em vilões e os pacientes em massa de manobra.
Existe um tipo de atuação política que depende do caos. Alimenta-se do discurso de “nós contra eles”, sem compromisso real com a solução. Porque, no momento em que o problema se resolve, desaparece também sua principal ferramenta de visibilidade.

Comissão de ética

Recentemente, um segundo vereador do partido de extrema-direita, foi denunciado por três vezes, na Comissão de Ética do Legislativo. Ao invés de adotar postura prudente, optou por intensificar os ataques. Durante sessão, chegou a ameaçar retaliação, afirmando que seria possível identificar o autor de denúncia anônima por e-mail — uma declaração grave.

Paralelamente, vem acumulando nas redes sociais registros de suas próprias irregularidades, expondo pacientes, familiares e profissionais da saúde — práticas que extrapolam, e muito, as atribuições do cargo.

Trata-se do mesmo vereador que já apresentou diversas propostas inconstitucionais, incluindo a tentativa de determinar quais medicamentos deveriam ser ofertados à população, como foi o caso das tais “canetas emagrecedoras” sob a justificativa de “conhecer tratamentos indicados” por visitar hospitais.
Desconhecer as funções do cargo pode não ser crime. Mas insistir no erro, ignorar limites legais e agir deliberadamente fora da lei revela má-fé.

A Comissão de Ética cumpre um papel essencial: lembrar que o poder público não está acima da lei. Seja vereador, prefeito, governador ou presidente - quem ocupa cargo público deve ser o primeiro a respeitar as regras que garantem o funcionamento da democracia.

O acolhimento que vira vitrine

Sim, muitas pessoas se sentiram acolhidas. E isso é compreensível. Em um sistema que falha, qualquer atenção parece solução. Mas é preciso dizer com todas as letras: isso não é cuidado público. Isso é exposição.

A dor de quem precisa vira conteúdo. O desespero vira vídeo. O paciente vira prova. E gente em situação de vulnerabilidade é usada para gerar engajamento - muitas vezes sem sequer ter dimensão disso.

Sentir gratidão não muda esse fato.

Ajudar alguém não autoriza violar regras, constranger profissionais ou transformar sofrimento em espetáculo. Não existe “boa intenção” que justifique esse tipo de prática. Isso não resolve o problema - só dá a impressão de que alguém está resolvendo. Enquanto alguns casos ganham visibilidade, milhares seguem ignorados. Enquanto a câmera está ligada, parece ação. Quando ela desliga, nada mudou.

Política pública não pode ser substituída por performance. Saúde não pode depender de quem grava melhor.

O nome disso não é acolhimento. É uso.

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