POLÍTICA

Ato na USP tem críticas a Toffoli e pede código de ética no STF

Por João Pedro Abdo | da Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min
Carlos Moura/SCO/STF
Ministro Dias Toffoli, do STF
Ministro Dias Toffoli, do STF

O Poder Judiciário brasileiro tem "demonstrado práticas que levantam suspeitas e geram desconfiança" e, portanto, "um código de conduta é medida indispensável para o fortalecimento da confiança da sociedade". É o que defendem os signatários da carta "Ninguém Acima da Lei", lida nesta segunda-feira (2) em evento no salão nobre da Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, no centro de São Paulo.

Em meio a desgastes que atingiram a imagem do STF (Supremo Tribunal Federal) nos últimos meses, a iniciativa faz parte de um movimento homônimo lançado em dezembro de 2025. O ato desta segunda foi idealizado pelas entidades Transparência Brasil, Derrubando Muros e Instituto Humanitas360.

Segundo a página do movimento, são mais de 66 mil signatários até o momento. A adesão à iniciativa também conta com organizações da sociedade civil, nomes da iniciativa privada e de juristas.

A carta defendeu a confiança pública nas instituições como um dos pilares de sustentação da democracia, partindo do mote de que uma Justiça "transparente e íntegra é inegociável".

"Há uma percepção amplamente disseminada na sociedade de que interesses privados vêm se sobrepondo ao interesse público, com impactos profundos sobre a legitimidade democrática e a própria noção de República", diz a mensagem.

A leitura foi feita por Frei David Santos, frade franciscano e diretor da Educafro. O religioso também falou em nome da organização que dirige e teceu críticas ao MPF (Ministério Público Federal) pelo que chamou de perseguição à população negra. "Estamos machucados com todos os partidos políticos", disse ao comentar possíveis desvios nas cotas partidárias.

O evento contou com a participação da diretora da Transparência Brasil, Juliana Sakai. Ela comentou os esforços pela efetivação do direto ao acesso a documentos públicos no Brasil e lembrou de entendimento do próprio STF de que o interesse público se sobrepõe ao direito à intimidade de servidores públicos.

Eunice Prudente, professora de direito da USP e secretária municipal de Justiça de São Paulo, lembrou que o lançamento da iniciativa acontece em ano eleitoral. Ela ressaltou o papel da sociedade civil na reabertura política brasileira e se disse "preocupada" com a maneira como os jovens participam hoje.

O diretor-executivo da TI (Transparência Internacional) no Brasil, Bruno Brandão, usou sua fala para abordar casos envolvendo a atuação do ministro Dias Toffoli, do STF. O dirigente lembrou as suspeitas levantadas contra o magistrado durante o julgamento do mensalão por sua atuação como advogado do PT.

Brandão lembrou a citação a Toffoli feita pelo executivo da construtora OAS, Leo Pinheiro, em sua delação premiada. As condenações do empreiteiro foram posteriormente anuladas pelo magistrado.

Por fim, também mencionou o recente embate entre o ministro e a TI. Em 2024, ele mandou o Ministério Público investigar a organização, que foi próxima de procuradores da Lava Jato, por terem supostamente se apropriado indevidamente de recursos públicos. "Nunca nos intimidaram", disse Brandão.

Toffoli está no centro do debate sobre o código de ética defendido pelo presidente do STF, ministro Edson Fachin. Ex-relator do escândalo do Banco Master na corte, Toffoli deixou a condução do processo após reunião secreta entre membros do Supremo. O ministro está no quadro societário de empresa que já fez negócios com a família de Daniel Vorcaro, dono do Master.

Conrado Hübner Mendes, professor da USP e articulador do evento, afirmou que o movimento pelo código de ética não busca uma reforma profunda nas instituições brasileiras e chamou de "sintomático" a oposição de ministros do STF a quaisquer mudanças.

"O STF não é mais levado a sério pelos motivos pelos quais deveria ser levado a sério", disse. "Autoridade se conquista, autoridade se administra e autoridade se preserva", completou.

O evento também contou com nomes da iniciativa privada e de organizações não indentificadas com o campo progressista. Entre eles, Fábio Barbosa, executivo, ex-presidente do Grupo Santander e membro do conselho de administração da Natura, e representantes do movimento Livres, que defende a pauta liberal na sociedade brasileira.

Pedro Parente, ex-ministro da Casa Civil durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e ex-presidente da Petrobras, também compareceu. "Para quem exerce funções pública, como o Judiciário, o cumprimento da lei é ponto de partida. Mas a sociedade espera muito mais. Espera padrões de comportamento éticos e inquestionáveis", afirmou.

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