Estimativas indicam que as pessoas com 60 anos ou mais representam aproximadamente 16,1% da população total do Brasil, o que corresponde a 34,1 milhões de pessoas. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de especialistas indicam que de 14% a 15% dos idosos brasileiros apresentam algum transtorno psíquico; destes, 13% têm sintomas de depressão e 8,5% convive com algum tipo de demência. Existe ainda outro dado alarmante: só quatro em cada dez idosos que relatam sintomas de depressão recebem diagnóstico formal.
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Apesar de todas as evidências, o sofrimento psíquico da população idosa continua fora do centro das políticas públicas e da atenção social. Especialistas alertam que, em meio ao envelhecimento acelerado da população brasileira, cresce a crise silenciosa marcada por subdiagnóstico, estigma e falta de acolhimento adequado a esta grande parcela.
Solidão
Estudos do ELSI-Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros) apontam a solidão como fator recorrente entre idosos, associada ao aumento de quadros de depressão, ansiedade e ao agravamento de doenças crônicas, cenário refletido diariamente nos serviços de emergência.
Na Francisca Júlia, instituição de referência em saúde mental em São José dos Campos (SP), por exemplo, o Pronto Atendimento recebe, em média, 200 pacientes com mais de 60 anos por mês, muitos já em sofrimento intenso, com depressão, crises de ansiedade, ideação suicida ou impacto emocional ligado a luto, solidão e perdas funcionais.
“Existe uma ideia equivocada de que tristeza profunda, apatia ou isolamento fazem parte natural do envelhecimento. Não fazem”, explica o médico Rodrigo Gasparini, Diretor Técnico da instituição. “O que vemos na prática é que muitos idosos chegam ao pronto atendimento após longos períodos de sofrimento silencioso, sem diagnóstico ou acompanhamento adequado.”
Atenção aos sinais
Para o psicólogo Enéias Amorim, o Janeiro Branco precisa focar mais do que o básico. “Cuidar da saúde mental não é apenas falar de ansiedade na juventude. É olhar para quem envelhece, para quem perdeu papéis sociais, autonomia, vínculos e, muitas vezes, não encontra espaço para falar sobre isso”.
O alerta ganha ainda mais peso diante de dados do Ministério da Saúde, que mostram que as taxas de suicídio aumentam com a idade entre os homens, alcançando os índices mais elevados nas faixas etárias mais avançadas. Alguns sinais não devem ser naturalizados no envelhecimento, por exemplo:
- isolamento social persistente
- perda de interesse por atividades antes prazerosas
- alterações de sono e apetite
- apatia, irritabilidade ou tristeza frequente
- abandono do autocuidado
- falas recorrentes sobre inutilidade, cansaço de viver ou desejo de desaparecer
Para os especialistas, dar visibilidade à saúde mental dos idosos é uma urgência que precisa sair do discurso institucional e se transformar em atenção contínua, prevenção e acolhimento efetivo.