Setembro Amarelo é o período durante o qual promove-se mais diálogo sobre saúde mental. A campanha anual de conscientização sobre a prevenção do suicídio foi criada para, além de falar sobre o assunto, reduzir o estigma associado ao suicídio e incentivar as pessoas a buscar ajuda quando necessário.
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Como parte das atividades do Setembro Amarelo, a reportagem da SAMPI entrevistou o médico psiquiatra Rodrigo Gasparini, responsável técnico do CVV (Centro de Valorização da Vida) Francisca Julia, em São José dos Campos (SP).
Leia a entrevista
SAMPI - É possível que uma pessoa tire a própria vida sem antes ter dado sinais?
Dr. Gasparini - Sim, é possível que uma pessoa tire a própria vida sem ter dados sinais. Isso acontece, via de regra, com pessoas que passam por um por uma situação de estresse agudo, como por exemplo, perda de um ente querido, uma situação traumática grave, e, podem, eventualmente, nunca ter passado por nenhum tipo de problema emocional, sofrimento psíquico, mas não suportam aquele trauma grave ou aquela situação de stress grave e encontram como alternativa, por ímpeto, tirar a própria vida como uma solução.
Mas não é a regra. A regra é que pessoas que pensam em tirar a própria vida ou tiram a própria vida, já sinalizaram de alguma maneira o sofrimento, um incômodo e uma insatisfação.
S - Aqui no Brasil, que principais motivos levam uma pessoa a se matar?
G - No Brasil, os principais fatores de risco para o suicídio é ter uma doença psiquiátrica, ter um diagnóstico psiquiátrico ou ter uma doença psiquiátrica sem diagnóstico, sem tratamento. A incidência de doenças psiquiátricas tem aumentado, consequentemente, aumenta-se o risco de suicídio.
Alguns outros fatores são: situações de miséria, desfavorecimento econômico, a criminalidade e violência de qualquer ordem, o uso de entorpecentes ou psicoativos. E outro fator importante, também bastante presente no Brasil, são os mais baixos índices de escolaridade.
S - Qual a faixa etária mais comum entre os suicidas no Brasil?
G - A faixa etária mais atingida entre 2010 e 2019 foi a dos adolescentes.

CVV Francisca Julia, em São José dos Campos (SP)
S - Há críticas aos serviços telefônicos dos CVVs. Se a pessoa telefona em busca de ajuda e não é atendida ou é mal atendida, que outras opções ela tem?
G - Isso pode ser feito por pessoas ou instituições habilitadas capacitadas, o Samu, médicos psiquiatras de linhas de apoio emocional. Hoje, no país e em muitos lugares no mundo, existem pessoas leigas que auxiliam.
O simples fato de você dizer que a pessoa não está sozinha, que a gente consegue apoiar, ajudar oferecendo uma escuta sem julgamento e apoio, como diz o professor Bertolotti, oferecendo ouvido e ombro, já é o suficiente para você tirar a pessoa de um comportamento suicida agudo, e é claro que depois dessa situação pontual, é importante que essa pessoa seja encaminhada para um tratamento.
S - O que pais e familiares próximos de um suicida podem fazer para lidar com a perda? É comum que se culpem?
G - É muito importante que pais ou familiares envolvidos com suicídio, de alguma maneira, procurem ajuda. Existem programas específicos de ajuda as pessoas diretamente ligadas ao suicídio, o próprio CVV tem um grupo chamado GASS que é Grupo de Apoio aos Sobreviventes do Suicídio. Esses grupos ofertam uma estrutura, ferramentas de apoio emocional para essas pessoas que estão diretamente envolvidas a esse evento traumático.
S - Uma pessoa que tentou suicídio uma vez deve ser acompanhada de perto para o resto da vida?
G - Esse tema é muito delicado e perguntas muito abertas ou muito fechadas podem induzir respostas também muito abertas e ou muito fechadas. Exige muita cautela, e é importante que a gente trate do assunto de forma aberta e responsável.
Um tema complexo tem muitas variáveis, muitos fatores envolvidos e tudo precisa ser avaliado com muito cuidado.
O que é o suicídio em si? É o desfecho desfavorável de um processo patológico, assim como uma uma gripe, ela pode ter como desfecho final desfavorável o óbito. Uma gripe, num idoso, por exemplo, pode evoluir para uma pneumonia bacteriana sobreposta, uma insuficiência respiratória grave e uma parada cardiorespiratória e óbito. É um desfecho desfavorável de um processo patológico. O pior desfecho dentro da medicina é óbito.
Na psiquiatria não é diferente. Isso não quer dizer que nós devemos normalizar o suicídio, mas do ponto de vista técnico, ele também é visto dessa maneira. Ele é o desfecho desfavorável de um processo psicopatológico.
Quando acontece, quando existe uma tentativa, entendemos que existe uma gravidade. Um paciente que já é grave do ponto de vista psicopatológico, provavelmente, vai precisar ser acompanhado por toda a vida.
Mas, existem exceções, tem paciente que por por uma questão pontual isolada da vida, como eu disse no início, por um estresse grave agudo, acaba tendo um comportamento suicida agudo. Pratica uma tentativa, supera esse processo e nunca mais precisa de segmento médico, por exemplo.