Imagine um revisor de texto que interfere de maneira violenta na obra alheia. No original o autor escreve "sim" e o revisor grafa "não". A mudança transforma uma verídica aceitação de acordo militar numa negação de mentirinha, e altera o rumo - no livro, é claro - de episódio da História de Portugal. "História do cerco de Lisboa", romance de José Saramago, foi publicado em 1989, na sequência de "A jangada de pedra" e de "O ano da morte de Ricardo Reis", obras que projetaram o escritor para além das fronteiras dos países de língua portuguesa.
Em "História do cerco...", o leitor acompanha a rotina de trabalho do disciplinado, erudito, solitário e anônimo revisor Raimundo Silva, solteirão de meia-idade, ocupado em corrigir e emendar erros de autores conhecidos e paparicados. Respeitado na editora para a qual presta serviços há duas décadas, Silva vive às turras com seu último trabalho: a revisão de obra em que o autor, um historiador pedante, desconhece fatos primários do que conta. Depois de indispor-se com mais de uma barbaridade histórica, e sem poder alterar o original - seu trabalho limita-se a corrigir sintaxe, ortografia e pontuação --, o revisor perde a paciência e faz a mudança já citada. Espera apreensivo a tempestade que há de chegar: demissão, repreensão pública, ostracismo profissional. Chamado à editora para explicações, os diretores aceitam suas desculpas fajutas. Sua nova chefe, apresentada a ele nessa reunião, quer, no entanto, mais explicações. Criado o climão, Raimundo e Maria Sara parecem feitos para rancores mútuos. Mas uma proposta inusitada da chefe muda tudo. Depois de ler os inúmeros trabalhos do revisor, em que ele foi além de sua atribuição e produziu para a editora artigos e sugestões, Maria Sara propõe a Silva escrever uma obra de ficção. Por que ele não leva adiante a ideia de que o cerco de Lisboa no século 12, em que cristãos tentavam reconquistar a cidade dos muçulmanos, tivesse outro andamento? Descartado num primeiro momento por parecer disparate ou troça, o desafio é aceito.
Saramago nesse ponto funde duas narrativas: a medieval história de amor do soldado Mogueime e da barregã Ouroana, e a trajetória de Raimundo e Maria Sara, na Lisboa contemporânea. Narrativas vazadas na mestria de estilo de Saramago, com seu ritmo e pontuação próprios. Alta dosagem de perícia e beleza, encomendadas para fascinar o leitor.
FERNANDO BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio