Onde tem cruzamento, é comum ter semáforo e, onde tem semáforo, há gente entre os carros para vender algo, para apresentar alguma arte ou simplesmente para pedir dinheiro. A atividade nas ruas é arriscada, mas não assusta quem precisa comer e, conhecida como uma cidade de ampla assistência, a maioria vem de fora de Jundiaí.
Segundo a diretora do Departamento de Proteção Social Especial da Unidade de Gestão de Assistência e Desenvolvimento Social (UGADS), Ariane Goim Rios, mais da metade das pessoas abordadas nos semáforos da cidade, pelo serviço social de Jundiaí, vem diariamente de Francisco Morato, pois aqui conseguem arrecadar mais dinheiro.
"De março a setembro, a gente fez uma abordagem social com 75 pessoas, cerca de 55% são de Francisco Morato. Percebemos que em agosto e setembro tinha um número maior de pessoas no semáforo. Isso pode estar ligado à flexibilização, as pessoas circulam mais. Mas não tem interferência com a pandemia. Sempre teve atividade nos semáforos", explica Ariane.
A diretora do Departamento de Proteção Social Especial também diz que a cidade intensificou na pandemia a oferta de alimentos a pessoas em situação de vulnerabilidade e, por isso, acredita que quem pede dinheiro nos semáforos não está passando fome. Entretanto, não há avaliação para os municípios vizinhos.
"O município entrega cestas básicas desde abril, foram mais de 30 mil cestas e nós nunca recusamos a oferta a ninguém. Além de ter ampliado a entrega das cestas, a gente começou uma mobilização para identificar as famílias vulneráveis e fazer uma busca ativa, então não tem porque pedir comida, com plaquinha. A gente atendeu mais de 11 mil famílias e pensamos que seriam 6 mil no início da pandemia", diz ela sobre as políticas de atenção para que haja alimento a quem precisa.
Roberto "Yolo" Alcalá, artista hipnótico
"Sou venezuelano. Estou em Jundiaí há dois anos e no Brasil há nove, mas estou para ir embora, vou para a Colômbia, minha companheira mora lá, Claudia, eu a amo. Vim para Jundiaí porque queria ficar perto de São Paulo, mas não tinha dinheiro para morar em São Paulo, e aqui era mais barato.
Eu poderia dizer que sou artista circense, alguns diriam que eu sou palhaço, outros, malabarista, e eu concordaria com alguns deles. Nem todo mundo acha a minha arte legal, tem gente que me manda ir trabalhar, chama de vagabundo, tem muita falta de cordialidade. A minha arte é delicada, eu preciso captar a atenção das pessoas, mas percebo que elas não estão abertas a receber uma dose de arte num semáforo.
Eu já fazia arte na rua há 20 e poucos anos atrás, só que depois fiz várias outras coisas. Morei numa comunidade Hare Krishna e aprendi a fazer ioga, a cozinhar, vendia livros, depois comecei a trabalhar com astrologia, mas agora na pandemia não me adaptei ao trabalho em casa e vim para a rua, por questão financeira e porque gosto de estar ao ar livre."
Rodrigo da Silva, o vendedor no meio dos carros
"Sou de Jundiaí, moro no São Camilo desde que nasci. Trabalho vendendo biju com o meu amigo, ele já vende há uns 15 anos, eu estou há uns quatro anos. Depois que perdi meu emprego vim vender com ele e estou até agora. Também vendo catálogos para conseguir tirar mais, mas não fui mais atrás de trabalho com carteira assinada. Quando aparecia alguma coisa, não virava nada, aí acostumei aqui. Pago INSS por fora, para se acontecer alguma coisa, porque a gente nunca sabe.
Caiu muito a venda, a gente costumava ir embora às 14h, 15h, agora vamos umas 17h, 18h para vender metade do que a gente vendia. Antes da pandemia a gente conseguia tirar R$ 150 livre por dia, agora peleja para conseguir R$ 100. No começo da pandemia, o pessoal ajudava mais, não comprava o biju, acho que porque tinha medo, mas dava uma caixinha. Agora eles não compram o biju e nem dão a caixinha, está bem difícil.
Aqui na avenida Nove de Julho acho que o povo já se acostumou com a gente, não vem mais ninguém neste semáforo, mas tem outros que estão muito concorridos, tem gente pedindo, vendendo, fazendo arte circense."
Jorge Dacunha, o malabarista da bicicleta
"Sou uruguaio, estou em Jundiaí faz duas semanas, mas já estou no Brasil há três anos. Estou voltando da Colômbia, vim pelo Mato Grosso. Viajo só de bicicleta, já viajei o Brasil todo e conheci também todo o Mercosul, Peru, Chile, Argentina, tudo de bicicleta.
Faz oito anos que trabalho na rua, aprendi o malabarismo sozinho, viajando. Também trabalho com gesso, sou pedreiro, mas gosto da rua, gosto de viajar. Quero ir para a Bahia depois de Jundiaí. Uso a bicicleta porque sou de uma família que não tem dinheiro, tenho sete irmãos. Meu irmão mais velho também viaja, não sei onde ele está agora. Acho que algum dia voltarei para o Uruguai, não sei quando.
Na rua tem de tudo, mas faço meu trabalho, quem quer colaborar, colabora, quem não quer, que Deus ilumine. Tenho que trabalhar todo dia, mas agora está difícil, as pessoas não abaixam a janela, antes eu conseguia R$ 100 reais por dia, que é o que preciso para viver, mas agora está difícil. No meu segundo dia em Jundiaí ganhei uma nota de R$ 200, daquela nova."
Jorge Dalla Valle e Luís dos Santos, pedindo o sustento
"Eu sou de Osasco, venho para cá e volto, amanhã vou para outro lugar. Eu, minha esposa e meu filho somos deficientes visuais. Nasci com glaucoma e meu filho também, ele herdou. Minha esposa ficou cega com 14 anos, com glaucoma também. Uso o dinheiro que consigo aqui para viver, pagar água, luz, comprar alimento, roupa. Infelizmente é a minha única fonte de renda. Minha esposa é dona de casa e meu filho estuda.
Fiquei uns dois meses parado, sem pedir, por causa da pandemia. Agora o pessoal está voltando a ajudar mais, mas tem gente que finge que não vê, humilha."
"Eu moro em Pinheiros, São Paulo. Eu sempre acompanho os deficientes. Eu vendia coisas nos semáforos e um dia conheci um deficiente, eles têm um grupo, e aí eu ajudo eles a arrecadar o dinheiro.
Tem dia que a gente vai embora com R$ 16 e tem dia que a gente consegue R$ 40, R$ 50. No começo da pandemia estava mais complicado, as pessoas tinham medo, mas estão voltando a ajudar aos poucos.
Lares que pedem ajuda não repassam para os deficientes. Uma bengala dessa custa R$ 100 e eles não dão. Muita gente humilha, xinga, fecha o vidro quando a gente chega perto, outros são muito educados. Teve um dia, antes da pandemia, no Morumbi que eu estava ajudando um deficiente e uma senhora parou num Jaguar e deu um envelope com R$ 1.500. Foi Deus, porque um dia antes o deficiente tinha sido assaltado."