Reconhecida como patrimônio imaterial de Jundiaí em 2014 pelo Conselho Municipal de Patrimônio Cultural (Compac), a Romaria Diocesana Masculina de Jundiaí é uma das peregrinações religiosas mais tradicionais da região e reúne mais de 1,5 mil pessoas anualmente. O principal berço dos romeiros são os bairros rurais, como Caxambu, Santa Clara, Ivoturucaia, Terra Nova, Corrupira, entre outros, que mantem a tradição de uma vida típica da roça em família.
São mais de 53 quilômetros que separam Jundiaí de Pirapora do Bom Jesus, destino final dos romeiros que viajam anualmente no terceiro domingo de maio, seja de cavalo, charrete, caminhão, bicicleta, carro, trator ou a pé.
A história da romaria começou em 1914, ano da Primeira Guerra Mundial, quando um grupo formado por 13 amigos de Jundiaí seguiu até Pirapora do Bom Jesus para pedir paz ao Senhor Bom Jesus. Nascia então a Romaria Diocesana Masculina de Jundiaí, que passou a ser anual e se tornou uma tradição de pai para filho.
De acordo com um dos diretores atuais da Romaria Diocesana, Edison Bardi da Fonseca, de 73 anos, a tradicional romaria ficou suspensa por dois anos, por conta da pandemia, e voltou esse ano em sua 108ª edição. O ponto de encontro dos romeiros é na igreja da Varginha, na região do bairro Santa Clara. "Este ano, por conta da paralisação, o número ainda estava um pouco reduzido e contou com cerca de mil romeiros da região. O ponto de partida é no bairro Santa Clara. Saímos no sábado, às 7 horas e chegamos por volta das 15h30 em Pirapora. Participamos da missa no final da tarde de sábado para rezar o terço e no domingo, às 5 horas. Retornamos para Jundiaí às 8 horas e chegamos em torno das 17 horas", detalha o romeiro.
DE PAI PARA FILHO
Bardi participa desde 1954 das romarias. Em sua primeira peregrinação ele estava acompanhado de toda sua família e tinha apenas cinco anos. Hoje, o romeiro pode acompanhar seus filhos e netos na tradição. "Algumas romarias são apenas para homens, mas atualmente já existem romarias mistas que é para levar toda família. Todos os meus parentes estão conectados à tradição, somos uma família típica caipira. Moro em uma chácara no Caxambu desde que nasci e as romarias fazem parte da minha criação e geração", diz o diretor.
Além dos familiares, Bardi tem suas companheiras fiéis de todas as romarias, as éguas Faísca, Fumaça e Fogueira, que o acompanham há cerca de dez anos nas peregrinações e recebem todos os cuidados. "São minhas companheiras de longa data. Muita gente tem uma visão errada sobre romarias e pensa que maltratamos os animais, mas durante todo ano eles se preparam para a peregrinação e recebem todos os cuidados necessários, desde consultas no veterinário como alimentação regrada. Praticamente 100% do meu dia é dedicado a elas. Estão totalmente preparadas para as cavalgadas", explica.
APARECIDA DO NORTE
A próxima romaria que o diretor vai participar será no dia 9 de outubro. Desta vez, o destino é mais longo. "Vamos para Aparecida do Norte em um grupo menor de romeiros. São seis dias de estrada e mais de 40 quilômetros percorridos por dia. Vamos até a igreja da cidade agradecer e pedir a benção ao Senhor", diz.
Assim como Jundiaí, outra cidade muito tradicional na prática de peregrinações é Itupeva, que conta com cerca de 700 romeiros. Segundo o presidente da Romaria de Itupeva, Valdimir Antônio Falco, de 54 anos, conhecido como 'Valdão', a romaria é um ambiente que acolhe famílias de diferentes gerações. "Eu comecei a participar com quatro anos, a influência foi dos meus avós, tios e pai. A romaria de Itupeva tem 65 anos e é mais antiga que o próprio município. Por ser bastante tradicional, além dos munícipes, muitas pessoas de fora da cidade e até do estado participam da peregrinação até Pirapora do Bom Jesus", afirma Valdão.
Em Itupeva, as romarias anuais são em março. Qualquer pessoa pode participar, basta comparecer ao local de partida no horário marcado. "As romarias são mistas e abertas para todos os interessados. Cada distintivo de participação custa R$ 10 e ajuda a arcar com os gastos da romaria que pode chegar a R$ 25 mil por ano", explica o presidente.
ROMEIRAS
Por muitos anos, apenas homens eram aceitos nas romarias. Em meados de 1971, uma das primeiras peregrinações mista da região surgia. Uma das romeiras e ex-diretora da Romaria Mista e Romaria Feminina de Jundiaí, Gabriela Cantoni, de 26 anos, participa da tradição há cerca de sete anos e comemora a participação de cada vez mais mulheres no meio. "Essa tradição para as mulheres já vem sendo mais aceita no meio. Minha avó participou de romarias e me influenciou muito. Eu fui diretora da Romaria Mista de Jundiaí por alguns anos e é muito gratificante ver as famílias envolvidas neste evento, com muitas mulheres e crianças", comemora a romeira.