EDUCAÇÃO TSE e MEC

Formação cidadã: educação política nas escolas divide opiniões

Por Diná de Melo | Jornal de Jundiaí
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação
Rodolfo Braga, Oswaldo Fernandes e Leandra Maia  convergem na preocupação sobre  influência ideológica
Rodolfo Braga, Oswaldo Fernandes e Leandra Maia convergem na preocupação sobre influência ideológica

A inclusão da educação política no currículo obrigatório das escolas brasileiras começa a avançar na regulamentação, mas também reacende o debate sobre o papel da escola na formação cidadã. A medida, prevista na Lei nº 15.468, sancionada em julho deste ano, ganhou novo impulso no dia 8 de outubro, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Ministério da Educação (MEC) firmaram um compromisso para definir diretrizes e apoiar a implementação do conteúdo em todo o país.

O tema divide opiniões sobre como ensinar democracia, direitos e deveres sem transformar a sala de aula em espaço de disputa partidária. Em Jundiaí e região, os entrevistados pelo Jornal de Jundiaí apontam diferentes preocupações, que vão do fortalecimento da participação popular ao risco de influência ideológica no ensino.

Legislação

A nova legislação alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) para incluir a educação política e os direitos da cidadania como componente curricular obrigatório da educação básica. O texto prevê que o conteúdo seja trabalhado no âmbito do estudo da realidade social e política, sem determinar, por si só, a criação de uma disciplina isolada.

Segundo o TSE, a parceria com o MEC busca contribuir para a regulamentação e a implementação da medida. Entre os assuntos previstos estão a história do voto no Brasil, o funcionamento do sistema eleitoral, os direitos e deveres dos cidadãos, a participação popular e o combate à desinformação. A proposta também contempla materiais didáticos, visitas pedagógicas e simulações eleitorais.

Próximos passos

O compromisso entre as duas instituições representa um avanço na preparação para colocar a lei em prática. O TSE apresentou sugestões de conteúdo e colocou à disposição do MEC cartilhas, vídeos, podcasts, jogos educativos e aplicativos. Também está prevista a criação de um grupo de trabalho conjunto para compartilhar experiências e apoiar a formação cidadã.

Até o momento, porém, o anúncio da parceria não significa que o conteúdo já esteja implantado de maneira uniforme nas escolas. A definição das diretrizes e dos caminhos para a aplicação pedagógica ainda é uma etapa importante. A legislação também prevê que novos componentes curriculares obrigatórios na Base Nacional Comum Curricular dependam de aprovação do Conselho Nacional de Educação e homologação do ministro da Educação.

Opiniões

Para o prefeito de Várzea Paulista, professor Rodolfo Braga, que também é educador, a proposta pode contribuir para preparar crianças e adolescentes para a vida em sociedade, desde que haja cuidado com a abordagem. “Como educador e prefeito, entendo que a formação cidadã é fundamental para o fortalecimento da democracia”, afirma. Ele defende que os estudantes compreendam o funcionamento das instituições e conheçam seus direitos e deveres, desenvolvendo pensamento crítico para participar conscientemente da sociedade.

O prefeito, entretanto, faz uma ressalva sobre a maneira como o conteúdo será apresentado. “A escola deve ser um espaço de conhecimento, diálogo, pluralidade e respeito às diferenças, e não um ambiente de direcionamento ideológico”, diz.

Rodolfo também considera positiva a inclusão da educação política na LDB e compara a proposta à antiga disciplina Organização Social e Política Brasileira (OSPB), extinta em 1993. Para ele, o ensino deve priorizar os princípios democráticos, a participação popular e o respeito às instituições, sem manipulação partidária.

A avaliação é semelhante à da diretora e mantenedora do Colégio Elíseos, Leandra Maia, que apoia a inclusão do tema no currículo. Para ela, a iniciativa pode recuperar um espaço específico para discutir a organização do Estado, a democracia e a responsabilidade dos cidadãos. A educadora ressalta, contudo, que a proposta precisa ser conduzida com responsabilidade e compromisso com a realidade. A finalidade, segundo ela, “deve ser formar cidadãos conscientes, críticos e participativos, capazes de compreender o funcionamento das instituições e respeitar diferentes opiniões”.

Lembrando a OSPB

A retomada do debate também desperta ressalvas relacionadas à experiência brasileira com o ensino de organização política. O professor Oswaldo José Fernandes, presidente de honra do PSB em Jundiaí e articulador político, manifesta preocupação com a proposta e com a possibilidade de interferência ideológica na formação dos estudantes. Ao recordar a antiga OSPB (Organização Social e Política do Brasil), ele resume sua posição: “Triste memória, saudades não”. Para Fernandes, é necessário observar com atenção o contexto político em que a educação será desenvolvida. “Muito cuidado nisso”, alerta.

O professor afirma ter dúvidas sobre os efeitos que a medida poderá produzir diante das disputas políticas no país. “Preciso saber se direita ganha, que tipo de política teremos”, diz, ao expressar receio sobre os rumos do ensino sob um governo de direita.

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