O que faria o filósofo Sócrates hoje, que viveu na Atenas do século V A.C, ao entrar em uma sala cheia de computadores?
Provavelmente, o que sempre fez, perguntas. O que é inteligência? O que significa saber? Quem pode dizer que conhece alguma coisa? Se uma máquina responde, ela sabe?
Sócrates nunca distribuiu certezas, ao invés disso, questionava até chegar ao ponto de o interlocutor atingir sua essência. Reconhecer o que não se sabe é a primeira condição para começar a aprender. “Só sei que nada sei”, dizia o filósofo.
Hoje, ele ainda é um ícone da atualidade, sem computadores, algoritmos ou inteligência artificial. Possivelmente possamos afirmar que os “prompts” para a inteligência artificial foram “inspirados” nas perguntas socráticas – objetivas, claras, contextualizadas, formatadas. Ele não escreveu livros. Sua provocação não era oferecer respostas prontas, mas colocar em xeque aquilo que seus interlocutores julgavam saber.
Séculos depois, René Descartes, afirmava “penso, logo existo.” O filósofo usa o ato de pensar como prova da existência do sujeito que pensa. Se tudo pode ser questionado — os sentidos, o mundo, aquilo que acreditamos conhecer — haveria alguma coisa que permanecesse indiscutível? Para ele era o pensamento.
Chegamos a 2026. Temos a inteligência artificial, que responde, escreve, resume, traduz, analisa, cria imagens, formula hipóteses, organiza informações e pode conversar durante horas sem demonstrar cansaço ou perder a paciência. E quanto mais sofisticada é a máquina, em determinados contextos, a sua produção pode ser confundida com a de um ser humano.
Portanto, quando uma IA produz algo que parece pensamento, pergunta-se: “Penso, logo existo” — mas quem é o “eu” que pensa? Produzir uma resposta é o mesmo que pensar?
Uma IA pode identificar padrões em quantidades de informação que nenhum ser humano conseguiria processar e também produzir resposta em segundos. Contudo, não significa que ela tenha consciência da pergunta, ou experiência do mundo, ou até mesmo responsabilidade sobre aquilo que afirma.
Se a máquina pesquisa, escreve, apresenta argumentos, oferece uma decisão aparentemente racional, precisamos assumir a responsabilidade pela escolha? Por que as máquinas pensam, os humanos deixam de pensar por eles?
Sócrates nos ensinou a desconfiar das certezas e Descartes a buscar a certeza no próprio ato de pensar. A inteligência artificial nos coloca diante de uma nova fronteira: como preservar a autonomia do pensamento quando temos uma máquina disponível para pensar conosco — e, eventualmente, por nós?
O pensamento e a análise crítica é e permanecerá sendo uma arma individual e imbatível do ser humano. Enquanto houver questionamento, há escolhas, valores, transformação.
Quando Descartes disse “penso, logo existo”, e atualmente delegamos o ato de pensar para uma máquina, o que exatamente estamos deixando de ser?
Uma última pergunta: você irá votar no próximo domingo? Ou se deixou terceirizar?
Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação