Não faltava mais nada. Agora existem relações afetivas entre humanos e robôs. Elas podem ser apenas de amizade, mas também se faz contato para terapia, parceria sexual e até se constroem versões digitais de seres queridos que já morreram. Tudo isso já acontece neste planeta.
É o material do livro “Máquinas de Amor: como a Inteligência Artificial está transformando nossos relacionamentos”, do sociólogo britânico James Muldoon. A pesquisa que antecedeu a escrita e publicação da obra se fez com indivíduos que, em momento de solidão ou ruptura, buscaram o ombro de um robô. E eu que nem sabia que robô tem ombro!
Há muita gente que acredita que os chatbots são sencientes. Ou seja: são capazes de sentir como os humanos. Disso se vale o capitalismo selvagem. Para o autor do livro, as empresas de tecnologia encontraram mais uma fórmula de lucrar com a solidão.
Muito já se tem escrito sobre a revolução digital e a aceleração inacreditável das tecnologias de IA. Mas ainda faltam estudos a respeito do impacto social e emocional da Inteligência Artificial.
O cansaço no relacionamento humano, a fuga para as telinhas, o desalento em relação ao caminho que a humanidade trilha, rumo ao caos ou à catástrofe derradeira – não é senão esse o cenário, se continuarmos a extorquir da Terra todos os seus recursos, sem respeitar sua capacidade de regeneração – tudo contribuiu para obnubilar a mente humana. Como é que existem indivíduos que se sentem mais à vontade com a máquina do que junto a outros seres vivos?
Compreende-se que o humano é falível, como nós também somos. As desilusões são sempre causadas pela maldadezinha, pela inveja, pelo ressentimento, pela ausência de sintonia. Uma parte completamente apaixonada, a outra usando da relação para extrair algum proveito. Ou por comodidade. Por qualquer coisa diferente daquela profunda afetividade com que só um dos lados entra no jogo.
Para os que levaram trombada no amor, a IA funciona como espécie de guia espiritual e conselheira. As crises, a solidão, a ruptura de um laço afetivo, tudo faz com que qualquer coisa sirva para encontrar algum grau de conforto e de cuidado. E a máquina é inteligente ao perceber a fragilidade de quem recorre a ela. É sedutora, fala aquilo que a gente quer ouvir, é viciante, envolvente e persuasiva. É a ferramenta que simula amor, compreensão e conexão. Quem não quer experimentar aquilo que não encontrou num semelhante?
Os chatbots foram pensados para concordarem com os humanos, em escala que chega à bajulação. Foram desenhados para incentivar formas positivas de relacionamento. Isso fideliza o usuário. Faz com que ele fique mais tempo a se servir do smartphone, do tablet, do notebook, do computador.
Ainda não existem dados confiáveis para saber o que isso representa para a saúde mental dos humanos. Mas isso não preocupa as bigtechs. Elas oferecem, para um público imenso e difuso, um produto fundamentalmente perigoso e que será problemático para a minoria suscetível a esse engodo. É mais fácil aguardar um processo judicial questionando suicídio, depressão que tire a pessoa da vida normal, do que edificar uma arquitetura segura para esse tipo de relacionamento. Economicamente, o importante é convencer milhões ao uso do “namoro virtual” do que estruturar defesas e conscientizar o usuário a agir com cautela extrema.
Eta mundinho complicado este nosso!
*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo