OPINIÃO

Lixo tem de gerar energia


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Impressiona-me a excessiva produção de lixo na maior cidade brasileira, a nossa querida São Paulo. São mais de quinze mil toneladas diárias. Isso não inclui lixo hospitalar, lixo eletrônico, lixo de materiais perigosos e os detritos gerados pela poderosíssima indústria da construção civil, que desperdiça 35% dos materiais durante a edificação.

Mais impressionado ainda fiquei ao saber que percentual mínimo desse lixo é reciclado. Isso porque a população que consome demais, desperdiça demais e não sabe descartar o que joga fora, não separa o resíduo úmido – que pode ser transformado em compostagem ou gás biometano, não fóssil – do resíduo seco. Tudo vai parar em aterro sanitário.

Aterro sanitário não é solução. É paliativo. São camadas sobre camadas de lixo compactado, gerando chorume, odor nauseabundo, atraindo urubus e representando um horroroso monumento à nossa ignorância.

Países mais civilizados já resolveram esse problema. Durante visita à China, em outubro de 2025, fiquei maravilhado com duas coisas. A China já não dispõe de lixo. Todas as ruas são limpíssimas, floridas, asseadas, verdadeiros cartões postais. E em espaço de tempo relativamente curto, os chineses construíram mais de mil UREs – Unidades de Regeneração Energética.

Visitei algumas delas, todas em cidades maiores do que São Paulo. É uma visita muito agradável. Ambiente clean e elegante. Eles cuidam muito da estética. Procuram construir UREs temáticas. Uma delas homenageava Monet. Outra, Renoir. Não se sente odor algum. Nenhum grau de calor. Sem ruído. Só música, só ambiente acolhedor. Uma beleza.

Essa precisa ser a solução brasileira também. Existe um preconceito de parte de alguns bem-intencionados ambientalistas-raiz, que abominam a incineração. Mas as UREs não emitem fumaça. Não se nota estar dentro de um equipamento que funciona a 1.050 graus Celsius para liquidar o lixo, produzir energia e deixar como resíduo um cimento ecológico.

Guardei um artigo escrito na FSP por Nickolas J.Themelis e Yuri Schmitke, o primeiro professor de Engenharia da Terra e Ambiental da Universidade de Columbia e o segundo, Presidente da Associação Brasileira de Energia de Resíduos – ABREN. Eles alertavam que poderosa rede de ONGs internacionais mobilizara-se contra o Waste-to-Energy (WtE), a tecnologia que converte resíduos não recicláveis em eletricidade e calor.

A verdade é que muitas dessas ONGs são financiadas por doadores que ocultam sua identidade e as motivações políticas que os impulsionam. Dizem-se ambientalistas, mas são beneficiárias de muito dinheiro provindo de corporações que protegem o setor petrolífero. Não há altruísmo, porém defesa da indústria irresponsável que continua a poluir o planeta e quer fazê-lo durante muitas décadas ainda. Um setor que não se comove com a desgraça que se abate sobre todo o planeta, enfermo, ferido e exaurido.

Protege-se a ideologia, em vez de se proteger a humanidade. O consenso científico está a favor da geração de energia a partir do lixo. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC, identificou a mitigação do metano de aterros como uma das maneiras mais rápidas, eficientes e econômicas de reduzir o aquecimento global a curto prazo.

O Brasil adia muito – e isso é fatal – ao adotar políticas públicas realmente protetoras da vida, como é a estratégia Waste-to-Energy. Jundiaí, que se orgulha de ser a segunda melhor cidade do Brasil, precisaria inovar e dar um passo importante para a implementação dessa tecnologia. Seria um exemplo para o mundo e um presente para os seus centenas de milhares de habitantes. E uma cidade sem lixo é outra coisa! Ver para crer!

 

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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