Causa-me horror assistir às entrevistas dos presidenciáveis de agora. Nenhum, mas nenhum mesmo, conhece a administração pública a fundo e, como é fácil vender fantasias ao povo, sugerem soluções fáceis a problemas complexos. E, se não bastasse, o mundo agora se divide em preto e branco, direita e esquerda, evangélicos, católicos e umbandistas e assim vai.
Vamos combinar que não avançamos como deveria nem nos quatro anos do Bolsonaro nem nos milhões de anos do PT. À nossa frente há uma dívida pública trilionária, um PIB totalmente comprometido com a dívida a ser paga, 30% de analfabetismo funcional, em um mundo que cobra competitividade a toda prova. Em plena era da IA, ainda fazemos licitações à mão, somos pouco eficientes em administrar a coisa pública e perdemos anos por ter uma infraestrutura capenga no país, em uma máquina inchada pelo funcionalismo.
Dito isso, é de se abismar que a gente não comece a discutir a administração pública com o tecnicismo que exige. Não é o político que faz a coisa andar. São políticas públicas contínuas, eficiência no gasto, funcionários bem preparados e responsabilidade fiscal. O político é, ou devia ser, um mero agente mediador dos anseios da população.
Vou dar um exemplo de política pública que dá certo, embora ainda falte financiamento correto: o SUS. Ele não é da direita nem da esquerda. Foi elaborado pela Constituição de 88 e segue firme. Assim como as transferências de renda, programa de sucesso brasileiro, que passa a ser copiado pelo mundo afora. Esse sim foi pensado por Eduardo Suplicy, um dos políticos de esquerda mais moderado que conheci.
Ou seja, está nos faltando bom senso. Se o cara veste azul, não é mais meu amigo. Se veste vermelho, é meu inimigo. Se não fala de Cristo, não entra na minha casa. Se não defende a tal da família - um conceito bem abstrato diante da diversidade de hoje em dia - não pode sentar à minha mesa.
E esse discurso também contamina as religiões. Não consigo botar fé alguma em religiões que pregam a divisão e costumes medievais, a serem seguidos fielmente, que nos transformam em sociedades patriarcais antiquadas. Ai, se Cristo ou Buda estivessem ainda por aqui iam se sentar à mesa com todos os convidados.
Discursos de ódio, marketing político bem elaborado e fake news servem para que as seitas políticas se estabeleçam. Quem não tem pensamento crítico, elaborado, quem não busca ler notícias de dois, três lugares, e busca um arquivo histórico para o contexto, vai se deixar levar por qualquer um.
Fora do âmbito político, se deixa levar por misoginia, red pills, e sites que apregoam a violência, o suicídio e o mal-estar e religiões que buscam a terra prometida.
Quase ri do candidato que acha que os drones irão salvar as mulheres da violência doméstica. Os brancos encastelados deste nosso país não sabem que os drones já são uma ferramenta da polícia paulista há anos. Que os apps para o chamamento de proteção policial também já existem.
O que não existe, caros candidatos, é educação de qualidade. Uma educação em que se discuta o letramento de gênero, para o combate efetivo de qualquer violência. O que não existe, caros candidatos, é uma saúde pública de acesso facilitado a todos. Muito menos emprego de qualidade, segurança pública etc. E sabe como conseguimos melhorar isso? gastando menos na máquina pública e investindo nas áreas sociais.
Não se iludam com promessas fáceis. O Brasil não é para amadores. Temos um passado escravagista que nos condena e nos permeia em nossas relações sociais e políticas. Na hora que alguém prometer o indelével, pergunte mesmo como iremos financiar tal política.
Vou parodiar meu colega de Opinião, Felipe Schadt, conhecimento é conquista.
Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ