OPINIÃO

A saúde exige bioinsumos

Por Redação |
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A poluição do planeta é uma realidade cuja evidência sequer os negacionistas podem se recusar a ver. Conspurca-se a atmosfera, com a emissão excessiva dos combustíveis fósseis; o solo, com o uso de insumos químicos e fertilizantes compostos de ingredientes cancerígenos; a água, que está imprópria para beber em quase todo o território nacional, sem falar na escassez que tende ao colapso hídrico.

Diante da catástrofe que se avizinha, é imprescindível que cada pessoa se conscientize de que ações individuais podem e devem fazer a diferença. Os ultraprocessados estão gerando populações obesas e, ao contrário do que se dizia na Idade Média – “gordura é formosura” – hoje a obesidade é uma doença grave.

Algo que a maior parte dos seres sensíveis pode fazer é deixar de usar insumos químicos e passar a cultivar com produtos orgânicos. Já existem soluções viáveis. E, para uma cidade que ainda é potente na produção agrícola, nada como se aproximar do que existe de bom e saudável. 

O trabalho científico da Cátedra Josué de Castro, da Faculdade de Saúde Pública da USP, destaca a “tríplice monotonia” que marca o sistema agroalimentar atual. Um dos pilares desse diagnóstico é a homogeneização dos sistemas agrícolas, marcada pela forte dependência de insumos químicos sintéticos. Como alternativa a esse modelo, tem crescido o uso de bioinsumos na agricultura.

O que são bioinsumos? São tecnologias de origem biológica, que substituem – com inúmeras vantagens – a produção química da indústria convencional. Eles desempenham três tipos de funções, correspondentes a três subfamílias de tecnologias. Em primeiro lugar, há os biofertilizantes, que desempenham funções de fertilização do solo. Eles enriquecem o solo com nutrientes e podem substituir os fertilizantes químicos.

Em segundo lugar, está o controle biológico, que desempenha funções de sanidade vegetal para defender as plantas contra doenças ou combater seus parasitas, assim como fazem os pesticidas químicos. Por fim, há os bioestimulantes, que otimizam o metabolismo da planta para melhorar a absorção de nutrientes e a tolerância ao estresse. Os bioinsumos podem ser compostos de substâncias muito diversas: extratos vegetais, macroorganismos como insetos ou, cada vez mais, microrganismos, como as bactérias e os fungos.

Tais dados são fornecidos pelo pesquisador Frederic Goulet, um dos responsáveis pelo trabalho desenvolvido na maior e melhor Universidade Brasileira, a USP. Como ampliar a utilização de tais produtos saudáveis?

Não é fácil nem ainda possível a substituição total daquilo que o agronegócio vem se utilizando há décadas. É melhor apostar na complementaridade entre tecnologias biológicas e químicas, rumo a uma transição tecnológica a longo prazo.

Para Goulet, há três grandes desafios: a disponibilização em larga escala dessas tecnologias, tanto para grandes quanto para pequenos produtores. A natureza biológica é mais sensível e oferece reptos logísticos que os insumos químicos não enfrentam. Depois, é difícil convencer os agricultores de sua vantagem, pois o que é artificial parece atender melhor à pressa de quem cultiva. Em seguida, a complexidade de capacitar todos os profissionais do setor agrícola (extensão rural, vendedores de insumos, engenheiros agrônomos) sobre a importância e o uso dos bioinsumos. Mas é preciso ousar e caminhar nessa direção, se quisermos que a experiência humana sobre este sofrido planeta mereça continuidade e não venha a ser subitamente interrompida.

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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