OPINIÃO

Nísia Floresta


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Ela nasceu Dionísia Gonçalves Pinto, mas entrou para a cena cultural brasileira do século 19 como Nísia Floresta, pseudônimo com o qual assinou sua vasta e ainda hoje pouco conhecida obra. Escreveu romances, ensaios, poemas, crônicas e artigos para jornal. Lutou por uma educação de qualidade para as mulheres, combateu a escravidão e defendeu ideais republicanos. Foi uma intelectual atuante nos idos de mil oitocentos e bolinha, mas seu nome, assim como o de outras mulheres escritoras (Júlia Lopes de Almeida, Narcisa Amália...), foi sendo apagado da historiografia literária brasileira.

Filha de um advogado português e de uma dona de casa brasileira, Dionísia nasceu em Papari, no litoral do Rio Grande do Norte, em 1810. A cidade foi rebatizada no século seguinte com o nome de sua cidadã mais ilustre: Nísia Floresta. De família abastada e instruída, a garota teve boa formação intelectual. Numa época em que as mulheres estavam completamente atreladas ao império dos homens, Dionísia saltou alguns passos fora das caixinhas esperadas. Exemplos: casou-se com 13 anos, mas largou o marido e voltou para a casa dos pais poucos meses depois. Aos 18 anos, foi morar com um estudante de Direito em Recife, com quem não se casou formalmente. Um escândalo para a época. O rapaz chamava-se Manuel Augusto de Faria Rocha e morreu precocemente, aos 24 anos, deixando Dionísia com dois filhos pequenos. Ela se mudou com a mãe e os filhos para o Rio Grande do Sul. Seu pai fora assassinado pouco antes, em Recife, por motivações políticas.

Adotando o pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira Augusta, passa a colaborar com a imprensa, enviando artigos e crônicas. Muda-se para o Rio de Janeiro, capital do império, e funda com uma de suas irmãs colégio para meninas. No currículo, inclui disciplinas incomuns para as mulheres, como latim, filosofia e ciências. Recebe críticas na imprensa por tais “ousadias”, afinal, para grande parte da opinião pública da época, as mulheres não teriam condições de assimilar tais conhecimentos. Elas deveriam se limitar a aprender tarefas domésticas e, caso fossem de famílias endinheiradas, absorver rudimentos de francês e de piano. Nísia achava que elas poderiam ir além. Fluente em francês, alemão, inglês e italiano, a escritora passa longa temporada na Europa, em companhia dos filhos. Conhece escolas, assiste a conferências e enturma-se com pensadores do período, como o francês Augusto Comte, pai do Positivismo. Trocam correspondência sobre filosofia e política. Em 1853, Nísia lança “Opúsculo humanitário”, seu livro mais conhecido. O volume reúne 62 artigos. A autora achincalha a escravidão, a qual chama de “jugo anticristão”. Defende com veemência a educação formal de qualidade para as mulheres. No livro, a autora exibe sua erudição, tratando de civilizações antigas e do papel exercido pelas mulheres nessas sociedades. Percorre Egito, Pérsia, Grécia, Roma, a Idade Média até chegar à contemporaneidade. E do século 19 compõe um vasto painel das sociedades na Alemanha, França e Inglaterra, países que conheceu e nos quais residiu.

Católica, seu pensamento passa também pelo aprendizado religioso das mulheres, fundamento para o que considera uma “educação completa”. Nísia critica a ignorância de grande parte dos padres e de seu pouco empenho para a catequização. Nísia voltou à Europa e passou a residir na França. Morou em Paris e em Rouen, cidade onde morreu, em 1885. Seus restos mortais voltaram ao Brasil em 1954 e estão sepultados na cidade potiguar que hoje leva seu nome.   

Fernando Bandini é professor de Literatura 

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