OPINIÃO

El Niño e o fim da civilização: é possível evitar?


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Durante milhares de anos, a natureza impôs seus ritmos à humanidade. Secas, enchentes, terremotos e tempestades moldaram impérios, provocaram migrações e decidiram o destino de povos inteiros. A diferença é que, até pouco tempo atrás, essas forças obedeciam essencialmente às leis da própria natureza. Hoje, pela primeira vez, a espécie humana tornou-se capaz de alterar o funcionamento do sistema climático do planeta.

É nesse contexto que o novo El Niño merece ser observado. O fenômeno, provocado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, não é novidade: sempre existiu e continuará existindo. O que mudou foi o palco onde ele se desenrola. Um planeta cerca de 1,3°C mais quente do que na era pré-industrial oferece à atmosfera mais energia, mais vapor d'água e, consequentemente, maior potencial para transformar eventos naturais em desastres de proporções inéditas.

No Brasil, os efeitos mais conhecidos tendem a repetir-se com intensidade potencialmente maior. O Sul poderá enfrentar chuvas excepcionais, enchentes e deslizamentos. O Norte e parte da Amazônia deverão conviver com secas severas e aumento expressivo do risco de incêndios florestais. Grande parte do Nordeste poderá sofrer nova redução das chuvas e agravamento da escassez hídrica. No Centro-Oeste e no Sudeste, ondas de calor mais frequentes e alterações na precipitação poderão afetar cidades, agricultura e produção de energia.

Nada disso constitui uma previsão de colapso da civilização. Seria um erro imaginar que um único El Niño tenha força para provocar tamanho desfecho. O verdadeiro perigo encontra-se em outro lugar: cada novo episódio climático extremo acontece sobre um planeta mais aquecido do que o anterior. Cada fração adicional de temperatura amplia o potencial destrutivo das tempestades, prolonga as secas, favorece incêndios, compromete colheitas, pressiona sistemas de abastecimento de água e aumenta prejuízos econômicos. O que antes era exceção passa lentamente a transformar-se em rotina.

As civilizações raramente desaparecem em um único dia. Roma não caiu em uma tarde; a civilização maia não desapareceu após uma única seca. O colapso costuma ser um processo lento, composto por inúmeras crises que, isoladamente, parecem administráveis, mas que, somadas, superam a capacidade de resposta das sociedades.

Imagine uma sequência de anos marcados por enchentes históricas, secas recordes, incêndios gigantescos, perdas agrícolas, aumento do preço dos alimentos, crises energéticas, deslocamentos populacionais e crescente pressão sobre os governos. Sua repetição contínua pode corroer, pouco a pouco, os pilares da vida moderna: infraestrutura, economia, segurança alimentar, estabilidade política e confiança nas instituições. A mudança climática deixou de ser apenas um problema ambiental e passou a representar um fator multiplicador de crises.

A boa notícia é que esse futuro ainda não está escrito. A humanidade dispõe de conhecimento, tecnologia e recursos para reduzir esse risco. A rápida diminuição das emissões de gases de efeito estufa continua indispensável, mas já não basta. Será igualmente necessário adaptar cidades, reconstruir drenagens, proteger encostas, recuperar florestas, modernizar a agricultura, gerir melhor a água e desenvolver alertas eficientes. Essas medidas não impedirão o próximo El Niño, mas podem impedir que cada novo episódio se transforme em mais um degrau na escalada de uma crise global permanente.

A pergunta realmente importante é se teremos inteligência, responsabilidade e visão de longo prazo para impedir que a sucessão de eventos transforme o século XXI na época em que a humanidade conheceu o problema, compreendeu suas causas e, mesmo assim, escolheu não agir.

Miguel Haddad é ex-prefeito de Jundiaí e ex-deputado federal

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