OPINIÃO

O clima entrou na prestação de contas


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Durante muito tempo, desastres provocados por chuvas, enchentes, deslizamentos ou estiagens foram tratados pelo poder público como fatalidades. A lógica era quase sempre a mesma: o evento acontecia, a cidade contabilizava prejuízos, decretava emergência e corria atrás de recursos para reconstruir o que havia sido destruído. Essa cultura começa a mudar. No Paraná, o Tribunal de Contas do Estado passou a incorporar a preparação para eventos climáticos extremos à avaliação das administrações municipais. Uma prefeitura que ignora riscos conhecidos poderá ter de responder não apenas politicamente, mas também institucionalmente por sua omissão.

A iniciativa ganha relevância diante das projeções para o El Niño de 2026/2027. A Defesa Civil paranaense trabalha com risco elevado de vendavais, granizo, enxurradas, inundações e deslizamentos. O próprio Tribunal já identificou fragilidades importantes: nos Campos Gerais, somente seis dos 19 municípios avaliados apresentavam estrutura considerada adequada para enfrentar desastres climáticos. A novidade está em transformar aquilo que antes parecia recomendação em elemento concreto de fiscalização. Desde 2022, os 399 municípios do Paraná são avaliados pelo Programa de Avaliação de Contas Municipais de Governo, e os resultados integram o parecer enviado às câmaras municipais para julgamento das contas dos prefeitos.

Essa mudança interessa ao Brasil inteiro. Não é mais possível alegar surpresa diante de problemas que se repetem todos os anos e para os quais já existem informação e tecnologia. Se uma área alaga sistematicamente, se uma encosta apresenta risco conhecido ou se uma cidade não possui plano de contingência, alertas, rotas de fuga e estrutura mínima de Defesa Civil, não estamos diante apenas de um problema climático. Estamos diante de uma falha de gestão.

É evidente que nenhum prefeito controla o volume da chuva ou a intensidade de uma tempestade. Mas cabe ao gestor planejar drenagem, impedir ocupações em áreas perigosas, manter equipes treinadas, investir em monitoramento, organizar abrigos, garantir comunicação com a população e prever recursos para emergências. Prevenção não elimina a tragédia, mas reduz mortes, prejuízos e o custo da reconstrução. Quase sempre, também custa menos do que reparar o estrago depois.

Há ainda um aspecto político. Obras de prevenção raramente rendem a mesma fotografia que uma ponte inaugurada, uma praça reformada ou um prédio novo. Parte do investimento fica literalmente debaixo da terra, como ocorre com sistemas de drenagem. Outra parte aparece apenas quando funciona: sirenes, protocolos, planos, treinamento e integração entre órgãos. Talvez por isso tantas administrações tenham historicamente preferido agir depois do desastre, quando máquinas e autoridades produzem imagens mais visíveis do que o silencioso trabalho preventivo.

O movimento do Tribunal de Contas do Paraná aponta para um conceito que tende a se tornar cada vez mais presente na administração pública: responsabilidade climática. Gestão fiscal responsável não pode significar apenas fechar as contas no azul. Também precisa significar cuidar do território, antecipar riscos e proteger vidas. Uma cidade vulnerável ao clima será também mais cara, desigual e menos competitiva.

Os tribunais de contas podem ter papel decisivo nessa transformação ao cobrar planejamento antes que a tragédia aconteça. Afinal, depois da enchente, do deslizamento ou do vendaval, não basta explicar que choveu demais. Em tempos de eventos extremos cada vez mais previsíveis, omissão também é uma escolha de gestão.

 

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ 

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