Quem caminha pelo centro de Jundiaí nos últimos meses percebe algo que há pouco parecia improvável: há gente na rua outra vez. A Festa da Padroeira Nossa Senhora do Desterro, ainda que pontual, devolveu ao centro aquela densidade humana que só as festas produzem: o vaivém, a conversa na calçada, o encontro casual com quem não se via há anos. A feira de antiguidades, um domingo por mês, faz algo semelhante em escala menor e ritmo constante (e não está sozinha: outros eventos vêm ocupando a praça central com alguma regularidade).
Ok, é verdade que, na feira, há mais artesanato do que antiguidade, e que o nome promete um pouco mais do que entrega. Mas tudo bem: é um começo, e tudo que se inicia merece ser reconhecido antes de corrigido.
Mas o problema é que reconhecer não basta. Basta desviar o olhar das barracas e das fachadas iluminadas para encontrar a outra metade da história: os imóveis vazios. Portas fechadas, vitrines cobertas de papel, aquele silêncio de segunda-feira que nenhum evento de domingo dissolve. A pergunta que se impõe é incômoda porque não tem resposta única. Será o preço dos aluguéis, descolado de qualquer realidade comercial em algumas ruas? Será a ausência de um projeto pensado para o centro, com horizonte de médio e longo prazo, e não apenas a soma de boas iniciativas isoladas?
Aqui está, a meu ver, o nó da questão. Ações pontuais funcionam: animam, atraem público, geram boa impressão. Mas são fogo de palha se não estiverem ancoradas em algo estrutural. Uma feira mensal não substitui uma política urbana; uma festa, por mais bela que seja, não redesenha a vocação de um território. O centro não precisa apenas de eventos: precisa de um desenho de futuro que diga o que ele quer ser daqui a dez anos.
Dou um exemplo, entre muitos possíveis. O entorno da Catedral tem tudo para se tornar um polo gastronômico consolidado: circulação de pessoas, escala urbana adequada, o valor afetivo que faz alguém escolher aquele lugar e não outro. Faltaria o quê? Um estímulo deliberado: vantagens fiscais para ocupações com essa destinação, previsibilidade para quem investe, regras que durem mais que um mandato. Não é ideia original. Mas é o tipo de decisão que exige olhar longe que costuma faltar.
Há ainda um desafio que nenhuma política municipal resolve sozinha. Pensar o centro apenas como espaço de compras é entrar numa disputa já perdida: a internet vende mais barato, entrega em casa e não fecha às dezenove horas. A pergunta correta não é como trazer o consumidor de volta às lojas, mas o que o centro pode oferecer que uma tela jamais oferecerá.
E a resposta é mais generosa do que se imagina: a mesa, o encontro, o serviço que exige presença, a cultura que só acontece ao vivo, a experiência que não cabe num pacote de entrega. Há comércios que a internet não ameaça porque não são, no fundo, apenas comércio,mas convivência. É nessa vocação que vale a pena investir.
Jundiaí tem memória e tem um centro que foi, por décadas, o lugar onde a cidade se reconhecia. Nada disso se perdeu; apenas adormeceu. Os sinais de retomada são legítimos e seria mesquinho não celebrá-los, mas temo que seja pouco. Para que o centro volte a ser aquele espaço maravilhoso que guardamos na lembrança, será preciso ir além do gesto simpático: pensar fundo, decidir com coragem e sustentar as decisões no tempo.
O centro voltou a respirar. Cabe a nós não deixar que a respiração se resuma a um suspiro.
Samuel Vidilli é cientista social