CICLISMO

Do lazer à competição, ciclismo exige disciplina e preparação

Por Vitor Silva |
| Tempo de leitura: 7 min
Divulgação
Edmilson de Souza Lima, de 49 anos, está a frente do Time Jundiaí de Ciclismo há 16 anos
Edmilson de Souza Lima, de 49 anos, está a frente do Time Jundiaí de Ciclismo há 16 anos

Pedalar aos fins de semana, acompanhar grupos pela cidade ou simplesmente aproveitar a bicicleta como atividade física são hábitos cada vez mais presentes em Jundiaí. Mas transformar o gosto pela modalidade em uma rotina competitiva exige uma mudança significativa de comportamento. Para chegar às provas em condições de disputar resultados, o atleta precisa lidar com treinamento, alimentação, descanso, preparação física e também com o aspecto psicológico.

À frente do Time Jundiaí de Ciclismo há 16 anos, o técnico Edmilson de Souza Lima, de 49 anos, conhece de perto essa transformação. Antes de assumir a função, ele próprio teve trajetória como atleta de triatlo, com experiências na natação e no ciclismo. Em 2007, após ingressar na Prefeitura de Jundiaí, começou a trabalhar na área esportiva e posteriormente recebeu o convite para comandar a equipe de ciclismo, função que exerce até hoje.

Para Edmilson, a primeira diferença entre o ciclista que pedala por lazer e aquele que busca o alto rendimento está justamente na rotina. Enquanto o praticante recreativo pode escolher os dias e horários em que vai pedalar, o atleta precisa seguir uma programação planejada e constante. “A rotina do atleta competitivo passa por várias vertentes, desde alimentação até treinamento específico em academia”, explica.

Segundo o treinador, os treinos de ciclismo são praticamente diários e fazem parte de uma preparação que não se limita às horas sobre a bicicleta. O atleta também precisa reservar espaço para musculação, flexibilidade, alimentação adequada e recuperação. A combinação dessas atividades torna a rotina desgastante e, por isso, exige comprometimento de quem pretende avançar para níveis mais altos da modalidade.

Nas categorias de base, a orientação é diferente. No programa Esporte Campeão, da Prefeitura de Jundiaí, a proposta é permitir que os jovens tenham contato com diferentes modalidades do ciclismo antes de escolher uma especialidade. BMX, mountain bike e ciclismo de estrada podem fazer parte desse processo de descoberta, permitindo que o atleta conheça características distintas antes de seguir para uma preparação mais específica.

A escolha da modalidade passa a ser mais clara conforme o jovem desenvolve condicionamento e começa a participar de competições. Alguns demonstram maior identificação com o mountain bike, enquanto outros se adaptam melhor às provas de estrada ou ao BMX. A partir desse momento, o treinamento pode ser direcionado para as características necessárias em cada modalidade e para o calendário de competições.

No ciclismo de estrada, por exemplo, uma prova pode exigir velocidade, resistência ou capacidade para enfrentar longos trechos de subida. Há ainda disputas em que o trabalho coletivo é determinante, com toda uma equipe atuando para colocar um determinado atleta em melhores condições para o sprint final. Por isso, não existe uma única preparação capaz de atender igualmente a todos os competidores.

O planejamento dos treinos é feito a partir de uma programação anual, que depois é dividida em períodos menores. Edmilson explica que o planejamento considera as competições mais importantes e as características individuais de cada atleta. Um ciclista especializado em sprint terá estímulos diferentes daquele que se prepara para provas de montanha, por exemplo.

Durante a semana, os trabalhos podem incluir treinos de sprint, atividades intervaladas e exercícios voltados ao vácuo, além de sessões de rodagem mais longas. A intensidade e o volume variam de acordo com a fase da preparação e com o calendário. Dessa forma, o treinamento deixa de ser apenas uma sequência de pedaladas e passa a obedecer a objetivos determinados.

A preparação, entretanto, não termina quando o atleta desce da bicicleta. Alimentação e descanso são fundamentais para que o organismo consiga suportar a carga de treinamento. Um dos erros apontados pelo treinador entre os iniciantes é justamente acreditar que quanto mais se treina, melhor será o resultado. Na prática, o excesso pode comprometer a evolução e aumentar o desgaste.

Outro equívoco frequente, segundo Edmilson, é acreditar que equipamentos mais caros garantem desempenho superior. Bicicletas de alto valor podem oferecer recursos e características específicas, mas não substituem treinamento, disciplina e hábitos adequados. Para ele, um atleta com equipamento mais simples, mas que mantém uma rotina consistente, se alimenta bem, dorme adequadamente e realiza preparação física pode apresentar desempenho superior.

A parte psicológica também ocupa espaço importante na formação do ciclista. Edmilson observa que alguns atletas apresentam números muito bons nos treinamentos, mas encontram dificuldades para reproduzir o desempenho durante as provas. Situações de pelotão, disputas por espaço e chegadas em alta velocidade podem aumentar a pressão e interferir diretamente na tomada de decisões.

Por isso, situações competitivas também precisam ser trabalhadas durante os treinamentos. A intenção é fazer com que o atleta se acostume progressivamente com a pressão encontrada nas provas e consiga manter a concentração quando estiver cercado por outros competidores. Para o treinador, essa adaptação está entre os principais desafios do trabalho com atletas de rendimento.

A experiência de Lucas Savieto Calimani, de 34 anos, mostra como essa rotina se incorpora à vida de quem escolhe competir. Integrante da categoria Elite e praticante de ciclismo há 11 anos, ele estima ter participado de cerca de 15 provas ao longo da trajetória e conquistado alguns títulos. O contato com a modalidade começou por influência do primo Thiago e do irmão Bruno, com quem passou a pedalar e acabou desenvolvendo uma relação cada vez maior com o esporte.

Hoje, Lucas vê o ciclismo também como uma forma de incentivar novos atletas. Para ele, a modalidade envolve valores que vão além dos resultados nas competições, como disciplina, honestidade, superação e trabalho em equipe. O atleta considera que a combinação entre preparação física e mental acaba refletindo também em outras áreas da vida.

A rotina de Lucas soma cerca de 14 horas semanais de atividade. Parte dos treinamentos é realizada no Parque da Cidade, sob orientação do professor Edmilson, enquanto outros trabalhos acontecem em estradas. Aos fins de semana, os treinos de endurance podem durar entre três e cinco horas. Em meio à programação, há um dia reservado para descanso.

O calendário de preparação também exige disposição para enfrentar condições adversas. Calor, frio e chuva fazem parte da rotina de quem treina ao ar livre, e Lucas considera que a maior dificuldade está justamente em manter a disposição para cumprir o que foi planejado diariamente. Na competição, um dos momentos mais delicados aparece nas chegadas das provas de estrada, quando o pelotão fica concentrado e a velocidade aumenta.

Nessas situações, a atenção precisa ser redobrada. Lucas destaca a necessidade de prudência, já que a disputa por posição acontece em um espaço reduzido e com muitos atletas próximos. A combinação entre velocidade, concentração e tomada de decisão transforma os metros finais em um dos momentos de maior tensão das provas.

Em Jundiaí, a modalidade encontra um cenário dividido entre o crescimento do ciclismo recreativo e as dificuldades para ampliar o competitivo. Edmilson observa que a cidade reúne muitos praticantes que utilizam a bicicleta para lazer, saúde e contato com os espaços naturais. No entanto, quando o objetivo é formar atletas e levá-los ao alto rendimento, a realidade é mais restrita.

Atualmente, o Time Jundiaí mantém atividades para atletas da equipe principal e das categorias de base no Parque da Cidade, em um ambiente considerado mais seguro para os treinamentos. A cidade também possui estrutura voltada ao BMX. Ainda assim, o treinador avalia que faltam profissionais para atender a uma população grande e ampliar o processo de formação.

A dificuldade de acesso aos locais de treinamento também pesa sobre as categorias de base. Nem todas as famílias conseguem transportar os jovens até os pontos de treino, enquanto muitos alunos não possuem bicicleta própria. Há ainda a concorrência com escola, outras modalidades esportivas e atividades do cotidiano, fatores que dificultam a manutenção de uma rotina sistematizada.

Para Edmilson, uma alternativa seria levar o ciclismo para dentro das escolas por meio de projetos estruturados e de incentivo ao esporte. A proposta permitiria apresentar aos alunos diferentes tipos de bicicleta e modalidades, identificando aqueles que demonstrassem interesse e potencial para posteriormente integrar categorias de base. O treinador acredita que eventos também podem ajudar na aproximação, embora reconheça a dificuldade e o desgaste envolvidos na organização de competições.

O desafio, portanto, não está apenas em colocar mais pessoas sobre uma bicicleta, mas em criar caminhos para que aqueles que descobrem talento e paixão pelo esporte possam continuar. Entre o primeiro contato e uma competição de alto nível existe uma longa trajetória de treinos, escolhas, disciplina, descanso, preparação mental e apoio. Em Jundiaí, atletas como Lucas e profissionais como Edmilson representam parte desse processo, mantendo o ciclismo competitivo em movimento e buscando abrir espaço para uma nova geração.

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