Em geral, somos bastante críticos em relação ao Poder Público, nem sempre lembrando que ele nos representa democraticamente. Quem elege os representantes? Os eleitores. Quem acompanha o seu trabalho? Mínima parte do eleitorado. A avaliação, fiscalização e controle ficam a cargo da mídia e dos organismos institucionais: Tribunais de Contas, Poder Legislativo, Ministério Público e pouquíssima gente do Terceiro Setor.
Administrar uma cidade não é fácil. As necessidades são infinitas, os recursos, entre escassos e inexistentes. Por isso, é importante que os municípios brasileiros procurem participar de sistemas de divulgação de boas práticas e se submetam aos requisitos para deles obter reconhecimento.
O CDP, que para nós significaria “Centro de Detenção Provisória”, é uma sigla internacional. É a organização Carbon Disclosure Project, que opera o único sistema independente de divulgação ambiental do mundo. Está em mais de mil cidades, estados e regiões, relatando dados ambientais que são divulgados ano a ano.
São Paulo, esta megalópole que é a maior cidade do Brasil, obteve o nível “A”, entre os municípios líderes que demonstram divulgação abrangente, governança ambiental madura e significativo progresso em direção à resiliência ambiental. A relação das cidades contempladas com o nível “A” é a tradução do que nelas ocorreu: todas evidenciaram esforços para reduzir emissões e criar resiliência perante os impactos das mudanças climáticas.
O que São Paulo fez? Como o maior vilão da cidade é o trânsito, com seus quase oito milhões de veículos percorrendo suas ruas e avenidas durante as vinte e quatro horas de cada dia, o enfrentamento precisa começar pelo sistema de transportes. O Prefeito Ricardo Nunes começou a substituição da frota de ônibus – são cerca de 13.300 – por veículos elétricos. Obteve financiamento por um pool entre bancos nacionais e estrangeiros, conseguiu que a indústria nacional se propusesse a entregar os ônibus e só esbarrou na inviabilidade da concessionária propiciar a infraestrutura de carregamento.
Por isso, São Paulo ainda não tem os 2.600 ônibus prometidos e com verba empenhada para adquiri-los, mas já chegou a 1.300. A entrega de mais 500 ônibus, de uma vez, acrescenta prestígio e relevância à capital. Além de possuir a maior frota de ônibus elétricos do Brasil, foi palco da maior entrega mundial desses veículos.
Cada ônibus elétrico significa o plantio de 6.400 árvores, calculado o carbono que as árvores sequestram e que os coletivos deixam de emitir. Além disso, significa uma economia anual de 35 mil litros de diesel, combustível fóssil venenoso, gerador dos gases do efeito estufa.
Mas a luta contra o aquecimento global não para aí. O abastecimento com biometano, gás natural produzido a partir de resíduos úmidos, está em pleno curso. Com isso, São Paulo promoveu mudanças, de forma transparente e em parceria com a ciência e com a iniciativa privada.
Tudo isso foi reconhecido pelo mundo consciente da gravidade do cataclismo climático e, também por causa disso, a capital recebeu o Selo Safira da Caixa Econômica Federal, no programa “Gestão Sustentável”.
Todas as cidades precisam também se habilitar junto a entidades como o CDP, integrantes do Terceiro Setor que, sem fins lucrativos, deseja construir um mundo onde as pessoas, o planeta e o lucro sejam verdadeiramente equilibrados. Se o trabalho é essencial, o reconhecimento de parte de instituições idôneas o valoriza e dignifica.
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.