O que seria a “máquina do infinito”? Uma ferramenta capaz de organizar toda a informação existente e manter essa organização à medida em que a humanidade vier a produzir mais dados.
Ninguém desconhece que o petróleo de hoje é a informação. Os dados que nos manipulam e que são multiplicados a cada minuto. Uma das aflições contemporâneas é o filtro que se tem de fazer, para que o nosso cérebro não seja uma profusão de dados cuja expressiva maioria é inteiramente inútil. O que reter? Como preservar o que é necessário? Como não se perder nesta inundação de informações e desta sede crescente de sabedoria?
O jornalista britânico Sebastian Mallaby escreveu um livro com esse título: “A Máquina do Infinito”, que é a biografia do fundador do DeepMind, um braço de inteligência artificial do Google, que ganhou o Nobel de Química em 2024: Demis Hassabis.
Para escrever o livro, Mallaby permaneceu muitas horas a entrevistar Hassabis, para quem todo o Universo, desde a experiência humana às leis da natureza, não passa de um complexo conjunto de dados. E a IA Geral, a Inteligência Artificial Geral, AGI, na sigla em inglês, é que reúne as potencialidades para essa mega organização. Ou seja: máquina poderosa, com poderes quase divinos. A máquina do infinito.
Hassabis é um homem excêntrico. Nasceu em 27 de julho de 1976, em Londres. Logo mais completará 50 anos. É descrito como hábil pesquisador da IA, neurocientista, designer de videogames e empresário. Em 2017, já constava da relação das cem pessoas mais influentes do ano e do mundo, lista elaborada pela Time.
Embora bilionário, não é exibicionista. Não tem iate, avião, automóveis valiosos. Casas suntuosas não o atraem. Investiria sua fortuna, se pudesse, para construir aceleradores de partículas no espaço. Com o objetivo de testar os limites da teoria da relatividade de Albert Einstein.
Sua história é o registro de uma compulsão pela vitória. Sempre quis ser o primeiro. Em sua classe, no ensino básico em Londres, mas também no xadrez e nos jogos de computador.
Desenvolveu universos digitais que simulavam clima, fome, ambição, medo, opinião pública. Foi na observação das reações dos personagens dos games ante cada variável no ambiente, que ele formulou a sua concepção de Inteligência Artificial: é aquilo que emerge da interação de um sistema com o mundo real.
Em Cambridge ele se formou em Ciência da Computação e obteve doutorado em neurociência pela University College London. Criou a DeepMind em 2010, que foi vendida ao Google por cerca de quinhentos milhões de dólares. Houve também interesse de Elon Musk, de Mark Zuckerberg e de outros, como Sam Altman, que lançou o ChatGPT pela OpenAI, em novembro de 2022.
Hassabis confessa que se frustrou em alguns projetos. Queria manter um esforço coordenado entre os principais laboratórios de IA, para que todos caminhassem juntos. Só que, em lugar da cooperação, venceu a competição. Sua intenção é abandonar a vida empresarial e se devotar inteiramente à Academia. Conseguirá?
É interessante que nossos jovens leiam essa biografia e se inspirem num trajeto que refoge aos nossos velhos e superados esquemas de optar por uma profissão tradicional e que tende a ser substituída, logo mais, pela surpreendente engenhosidade da IA.
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.