OPINIÃO

A travessia do Canal da Mancha


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Algumas conquistas ultrapassam o esporte. Elas nos lembram do que o ser humano é capaz quando propósito, preparo e perseverança caminham juntos. A travessia do Canal da Mancha realizada por Ana Marcela Cunha, campeã olímpica em Tóquio 2020 e uma das maiores nadadoras das águas abertas, entrou para a história no último dia 22 ao completar o percurso em 8 horas e 29 minutos, estabelecendo um novo recorde sul-americano absoluto, entre homens e mulheres.

Embora a distância oficial entre a Inglaterra e a França seja de aproximadamente 34 quilômetros, as fortes correntes marítimas fazem com que os nadadores percorram trajetos muito maiores. No caso, foram cerca de 42,9 quilômetros de águas geladas, mudanças constantes de maré e horas de intenso desgaste físico e mental. Mais do que vencer o frio e o cansaço, ela superou o momento em que a mente tenta convencer o corpo de que já é hora de parar.

Poucos desafios esportivos exigem tanta preparação. O Canal da Mancha é considerado um dos maiores testes de resistência do mundo. A água costuma permanecer entre 15 e 18 graus, as correntes mudam constantemente e o atleta precisa manter a concentração durante muitas horas, sem qualquer apoio físico. Nessa prova, força e técnica são fundamentais, mas a estabilidade emocional faz toda a diferença.

Essa conquista também carrega uma emocionante carga simbólica. Ana Marcela sempre reconheceu a inspiração que encontrou em Renata Agondi, uma das maiores maratonistas aquáticas do Brasil, que faleceu em 2018 durante uma tentativa de cruzar o Canal da Mancha. Sonhos verdadeiros não desaparecem quando uma história termina. Eles permanecem vivos nas pessoas que decidem continuar o caminho. De certa forma, cada braçada de Ana Marcela também homenageou o legado deixado por Renata.

Por trás de grandes atletas existem grandes mestres. Nesse caso, merece destaque o técnico Kafu e Igor de Souza, um dos nomes mais respeitados da maratona aquática brasileira. Ele próprio já cruzou o Canal da Mancha três vezes, incluindo uma impressionante travessia de ida e volta, um feito alcançado por pouquíssimos nadadores no mundo.

Sua experiência mostra que grandes resultados são construídos com conhecimento, estratégia, confiança e anos de dedicação silenciosa. O Brasil possui atletas extraordinários que frequentemente conquistam feitos históricos sem receber o reconhecimento, o incentivo e a valorização que realmente merecem. Celebrar essas histórias é reconhecer anos de disciplina, renúncias e dedicação que acontecem muito antes dos aplausos. 

Ao acompanhar a travessia de Ana Marcela, fica uma pergunta que vale para todos nós: qual é o Canal da Mancha que precisamos atravessar em nossa própria vida?

Talvez não seja um mar gelado, mas um problema de saúde, uma mudança de carreira, um recomeço ou até a decisão de abandonar o sedentarismo e cuidar do próprio corpo. Nenhuma dessas travessias acontece em um único dia. Elas são vencidas uma braçada de cada vez.

Ana Marcela nos mostrou que os maiores recordes não são apenas aqueles registrados nos livros. São aqueles que nos inspiram a acreditar que, com preparo, coragem e persistência, também podemos chegar ao outro lado. Muita saúde a todos.

Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo. Pioneira do método ELDOA no Brasil

 

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