Creio que seja direito de todas as crianças e adolescentes conhecerem novas paisagens na percepção de que existe um mundo além dos limites de sua aldeia. As diferenças sociais, porém, condenam muitos a viverem em um espaço diminuto, sem chances do além do horizonte.
Como acontece todos os anos em julho, é promovida uma excursão para os alunos da Casa da Fonte. O conhecido “Passeio de Férias”. Desta vez, no dia oito, fomos ao Parque Reserva Cabreúva localizado na Serra do Japi, com quase 400 mil m² de Mata Atlântica. Foi uma vivência incrível, imersa no encanto da natureza com árvores, água, flores, mata… Como se, de repente, fôssemos sugados pela beleza que Deus proporciona e esquecêssemos o cinza de algumas ou mais horas que todos carregam.
Brincar muito, andar por trilhas sem medo, visitar aves conhecidas e desconhecidas, observar as peças do museu com suas peculiaridades ocuparam o dia, além da curiosidade saudável. A toda hora chamavam um dos acompanhantes para mostrar suas descobertas.
Assim que chegamos, placas com algumas frases notáveis antigas, que sempre fazem a diferença na vida das pessoas. Cito duas: de Salvador Allende: “Não basta que todos sejam iguais perante a lei. É preciso que a lei seja igual perante todos”. E como assistimos, tantas vezes, ao espetáculo doloroso da lei que não é igual perante todos. E de Rui Barbosa: “Maior que a tristeza de não ter vencido é a vergonha de não ter lutado”. Hoje, contudo, não é oferecido, a incontáveis, os instrumentos necessários para a luta, desde a alfabetização.
Salvador Allende, médico e ex-presidente do Chile (1908-1973) e Rui Barbosa, político e jurista brasileiro (1849-1923). Foram destaque em humanidade.
Uma tribo indígena possui lá a sua oca e aos finais de semana realiza algumas oficinas. Na placa ao lado, com o título “Povo não Civilizado”, o rio limpo com indígena na canoa. No “Povo Civilizado”, um indivíduo navegando em águas sujas. Infelizmente é bem isso. Há também um cantinho homenagem a Santa Dulce dos Pobres com um dos pensamentos que traduzia sua maneira de ser: “As pessoas que espalham Amor não têm tempo, nem disposição para jogar pedras”.
O passeio foi proporcionado pela Associação Socioeducacional Casa da Fonte, através da Companhia Saneamento de Jundiaí – CSJ – e o almoço e o café da tarde – no restaurante -, que os alunos acharam o máximo, foi pago com o valor arrecadado pelos colaboradores da compra de pizza, promoção realizada em maio pela entidade. Gratidão a todos que contribuíram. Almoço e lanche com muita dignidade.
Quando chegamos de volta, uma menina que, apesar da pouca idade - ainda não saiu da infância - possui uma história de luto tenebroso me disse: “Agradeço a todos pelo carinho. Meus olhos estão cheios de beleza”. Considerei tão profundo e significativo. A um dos meninos, aluno de há pouco tempo na entidade, de família em busca de um porto, perguntei se havia gostado do passeio. Respondeu-me: “Tinha que gostar. É meu primeiro passeio”. Como afirmou há poucos dias o Papa Leão XIV: “Deus não se impõe pela força, mas se revela no amor discreto”. Foi o resumo de todos os acontecimentos daquele dia.
Maria Cristina Castilho de Andrade, Professora e cronista