Único monólogo do dramaturgo Nélson Rodrigues (1912/1980), “Valsa número seis” está em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. Dirigida por Jorge Farjalla e estrelada por Carol Costa, a peça conta a história de Sônia, uma garota de 15 anos morta pouco antes de seu baile de debutante. Nélson escreveu a peça, em 1951, para sua irmã Dulce, na época estudante de piano e atriz iniciante. A “Valsa número seis”, na clássica tipificação do crítico Sábato Magaldi, pertence às “peças psicológicas” do dramaturgo, assim como “Doroteia” e “O anjo negro”.
A montagem contemporânea escancara o que o original insinua: que Sônia fora abusada sexualmente em mais de uma ocasião, e assassinada por alguém conhecido dela (talvez um familiar, um médico “amigo” ou o namorado...). Na versão agora em cartaz, o feminicídio é o tema principal de “Valsa”. Farjalla – que também assina cenografia e figurino – concebeu um palco mínimo, um quadrilátero cercado por 40 cadeiras para o público dispostas em duas fileiras contornando o espaço cênico. Quando os espectadores entram, todos juntos, na sala de espetáculo, a atriz já está no palco, recepcionando os recém-chegados. O ambiente intimista aproxima ainda mais a personagem do público. Na rubrica do autor, o cenário deveria contar somente com um piano branco e um banquinho. O diretor eliminou o piano e manteve apenas o banco, onde a atriz senta-se, deita-se e se esparrama em mais de uma sequência, imprimindo ritmo e dinamismo à montagem.
Costa alterna as vozes: à de Sônia acrescentam-se a de Paulo, sujeito mais velho, casado, e namorado de Sônia; a do doutor Junqueira, médico da família; e as da mãe e do pai de Sônia. A atriz exibe sua própria voz em trechos acrescentados, pequenas pausas do texto original, em que relembra números atualizados de feminicídio, bem como episódios recentes de violência e de abusos contra mulheres, reverberados em larga escala nas redes sociais. A melodia de Chopin, que dá título à peça, é reproduzida em fragmentos distorcidos, em meio a ecos e gritos, como estilhaços da música.
Em cena, a adolescente Sônia alterna as criancices que perduram nessa fase da vida com as descobertas do mundo adulto, em que a sexualidade e o desejo afloram. Nélson Rodrigues -- mestre da concisão nas falas de seus personagens – redigiu um texto de grande força dramática. Ainda que cercada de canalhice e torpeza, Sônia aparece como uma personagem delicada, tentando compreender o mundo que a cerca. E querendo saber o que de fato aconteceu com ela pouco antes do seu baile.
A atriz, cantora e dançarina Carol Costa participou dos espetáculos “Clara Nunes – a tal guerreira”, “Tarsila, a brasileira” e “Ópera do malandro”. Depois de uma sequência de musicais, a atriz resolveu encarar o monólogo de Nélson Rodrigues. Nessa montagem, Carol Costa não só dá conta do recado como demonstra sua versatilidade e talento. A curta temporada paulistana da “Valsa...” termina no final deste mês.
Fernando Bandini é professores de literatura