OPINIÃO

Cusparada


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Recordo-me de um episódio sobre Santa Dulce dos Pobres, que me foi contado pelo Padre Márcio Felipe de Souza Alves, Reitor e Pároco no Santuário Diocesano Santa Rita de Cássia.

Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes (Salvador 1914 – 1992) foi uma freira brasileira e santa, reconhecida por suas obras de caridade e assistência aos excluídos como Anjo bom da Bahia.  O Papa Francisco a canonizou 2019.

Graças a ela, foi construído, a partir do abrigo em um galinheiro, o Hospital Santo Antônio em Salvador.

Voltando ao fato contado pelo Padre Márcio Felipe: certa vez ao solicitar a um empresário ajuda aos seus excluídos, ele lhe cuspiu na mão. Ela estendeu a outra e disse: “Essa cusparada é para mim, mas para os pobres o senhor poderia dar um auxílio?”

Semana passada, em confissão e direção espiritual com o Padre Márcio Felipe, ele colocou que quando não revidamos os ataques, em respeito ao Deus Amor, é uma atitude como a de Santa Dulce. Impactou-me! Tenho a palavra na ponta da língua para retrucar e, dessa forma, não testemunho a Boa Nova do convite de Jesus, que encontramos no Evangelho de Mateus (11, 29.30): “Tomai meu jugo sobre vós (...), porque eu sou manso e humilde de coração e achareis repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve”. Jesus propõe um caminho de paz, amor e suavidade, não é um jugo pesado. E a paz nasce a partir de pequenas atitudes. A de Santa Dulce foi enorme: dominar-se para que o Senhor reagisse nela.

Enquanto Padre Márcio Felipe me falava, lembrei-me, arrependida, da vez que fui testemunha, no Fórum, em favor de uma mulher que passara pela prostituição e, posteriormente, fora enganada por um viúvo espertalhão. Ao chegar para a audiência, ainda na sala de espera, o indivíduo aproximou-se de mim e, de imediato, cuspiu no meu sapato. Levantei-me depressa e esfreguei o sapato na calça de terno dele.  Ele olhou para o policial que nos observava e silenciou rangendo os dentes. Eu estava lá com o propósito de testemunhar uma verdade e não para vingança.

Após a orientação do Padre Márcio Felipe, constatei que perdi a oportunidade de exercitar um coração brando e de dar testemunho do Evangelho. Juntei a colocação dele a uma de suas homilias de que Deus não nos quer pela metade, quer-nos por inteiro. Não podemos dialogar com o demônio, que tenta nos prender em situações que nos trazem conforto e prazer pela desforra, mas que nos afastam das coisas do Céu. Acrescentou que não é fácil fazer a vontade de Deus quando nos sentimos contrariados com ela e não é por nossa força que conseguiremos, mas pela graça do Senhor que nos convida abraçar a Cruz que salva.

No dia seguinte, ele me enviou a oração das vésperas: “Ó Deus, cuja inefável sabedoria maravilhosamente se revela no escândalo da cruz, concedei-nos de tal modo contemplar a bendita paixão de vosso Filho, que confiantes nos gloriemos sempre na sua cruz”.

Deu-me como penitência rezar o Salmo 123(124): “Nossa alma escapou como um pássaro, / dos laços do caçador. / Rompeu-se a armadilha, / e nos achamos livres. / Nosso socorro está no nome do Senhor, /criador do Céu e da terra”.

Que a cusparada do próximo, da forma que for, se transforme em anúncio de Evangelho, com a graça de Deus, em minha atitude.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista

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