OPINIÃO

O futuro já pede água


| Tempo de leitura: 3 min

Há notícias que parecem dizer respeito apenas aos grandes centros urbanos. Até que percebemos que elas falam, na verdade, de todos nós.

Nesta semana, uma reportagem mostrou que a Região Metropolitana de São Paulo dispõe de apenas 127 metros cúbicos de água por habitante ao ano — menos de 10% do mínimo considerado adequado pela ONU. O cenário é tão preocupante que já se discute o reúso potável da água proveniente do tratamento de esgoto como alternativa para garantir o abastecimento das próximas décadas.

É um alerta que não deveria ficar restrito à capital.
Jundiaí costuma aparecer nos rankings de qualidade de vida, possui bons índices de saneamento e uma gestão reconhecida dos recursos hídricos. Mas isso não significa que estejamos protegidos dos efeitos das mudanças climáticas. Muito pelo contrário.

Nos últimos anos, temos acompanhado um aumento consistente das temperaturas, ondas de calor mais intensas, chuvas cada vez mais concentradas e um processo silencioso de transformação da paisagem urbana. Árvores dão lugar ao concreto. Áreas permeáveis desaparecem sob novos loteamentos. Ruas antes sombreadas tornam-se corredores de calor.

Não é uma percepção. É uma realidade.

Diversos estudos já demonstram que bairros com menor cobertura vegetal registram temperaturas significativamente superiores às áreas mais arborizadas. O resultado aparece na conta de energia, no consumo de água, na saúde pública e na qualidade de vida.

Ao mesmo tempo, seguimos alimentando a falsa sensação de que a água sempre estará disponível.

Não estará.

A crise hídrica de 2014 mostrou que mesmo um dos estados mais ricos do país pode enfrentar dificuldades para abastecer sua população. Agora, mais de uma década depois, o debate já não é apenas ampliar reservatórios ou construir novas adutoras. A discussão evoluiu para soluções antes consideradas extremas, como o reúso potável da água tratada.

Isso revela o tamanho do desafio que teremos pela frente.

As mudanças climáticas deixaram de ser um problema das próximas gerações. Elas já alteram o regime de chuvas, elevam a temperatura média e aumentam a frequência dos eventos extremos.

Por isso, a adaptação precisa deixar de ser palavra de seminário e se transformar em política pública.

Preparar uma cidade para um clima diferente significa ampliar a arborização urbana, proteger nascentes, recuperar matas ciliares, preservar áreas de infiltração, reduzir a impermeabilização do solo, incentivar construções mais sustentáveis e planejar o crescimento urbano considerando a disponibilidade futura de água.

Significa também compreender que desenvolvimento e preservação ambiental não são adversários. São parceiros inseparáveis.

Jundiaí vive um momento importante de expansão econômica e imobiliária. Novos empreendimentos, novas centralidades e investimentos públicos são bem-vindos. Mas o crescimento sem planejamento ambiental cobra uma conta alta — e normalmente ela chega anos depois, quando já é tarde para corrigir.

A melhor obra de infraestrutura talvez nem seja a mais visível. Muitas vezes ela está na árvore preservada, na praça recuperada, no córrego desassoreado, na nascente protegida e na calçada permeável que permite à chuva infiltrar em vez de provocar enchentes.

Não podemos esperar que a escassez bata à porta para começar a agir.

A água que hoje sai da torneira pode nos transmitir uma perigosa sensação de segurança. Mas segurança hídrica não é apenas ter reservatórios cheios neste inverno. É garantir que nossos filhos e netos também tenham acesso a esse recurso em um clima que será inevitavelmente diferente do atual.

As cidades que compreenderem isso primeiro serão as que sofrerão menos no futuro.

O tempo de preparar Jundiaí para as mudanças climáticas não é amanhã.

É agora.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ  

Comentários

Comentários