Esse é o título do livro de Osvaldo Orico, (1900-1981), ao biografar José do Patrocínio (1854-1905). Este abolicionista fundou uma Confederação para acabar com a escravidão e criou um jornal que abraçou a causa, da qual ele era o principal artífice. José do Patrocínio foi um dos gigantes dessa epopeia que resultou na ruptura de uma era miserável, em que se escravizavam seres humanos, nossos semelhantes, nesta Terra de Santa Cruz.
Osvaldo Orico integrou a Academia Brasileira de Letras e é um escritor notável, hoje pouco lido. Como curiosidade, mencione-se que ele é pai de Vanja Orico (1931-2015), cantora, artista e cineasta brasileira.
Recomenda-se a leitura ou releitura dessa obra, a biografia de um personagem sobre quem Joaquim Nabuco afirmou: “O que Patrocínio representa é o fatum, é o irresistível do movimento. Ele é uma mistura de Spartaco e de Camilo Desmoulins”. E de quem Araripe Júnior disse: “Era o tumulto feito homem!”.
Ao escrever sobre José do Patrocínio, Olavo Bilac assinalou: “Quando chegou a hora da erupção, daquela cólera vingadora, toda a sociedade estremeceu, abalada, tomada de uma comoção entontecida. Nunca houve, no Brasil, uma voz que soasse tão alto, que ferisse tão fundo, que derramasse em torno uma tão larga torrente de ódios, de sustos, de maldições, - e, ao mesmo tempo, de esperanças e de bênçãos ... E a raça negra viu aparecer o projeto esperado, o Messias anunciado nas eras, dentro de uma tempestade de raios e de flores, acendendo cóleras, pensando feridas, despedaçando grilhões, fulminando orgulhos, beijando cicatrizes, ateando a fogueira em que se havia de purificar o Brasil”.
Todavia, a “purificação” do Brasil é um processo permanente, que necessita prosseguimento sério, tenaz, para acabar com o racismo estrutural, ainda contaminante de nossa sociedade. Para que essa batalha prossiga, é urgente resgatar a memória de heróis como o “Tigre da Abolição”.
José do Patrocínio é um paradigma de ser humano que se autoconstruiu e superou todas as condicionantes que o condenariam a uma vida indigna e infeliz. Vale, para a sua história, a lição de Rui Barbosa: “Ninguém desanime, pois, de que o berço lhe não fosse generoso, ninguém se creia malfadado por lhe minguarem de nascença haveres e qualidades. Em tudo isso não há surpresas que se não possam esperar da tenacidade e santidade no trabalho”.
Ambos os atributos foram cultivados por José do Patrocínio, filho de um padre e de uma quitandeira. Origem lembrada por Mário de Alencar, quando tomou posse na Academia Brasileira de Letras, na cadeira de que José do Patrocínio é patrono. Consta dessa oração inaugural: “...ver-me-ia agora em grandes dificuldades para explicar-vos os indícios da formação do jornalista e do orador no obscuro comércio de uma quitanda e na tranquilidade benta de uma igreja da província”.
Ao confessar sua incredulidade no efeito inapelável dessas influências nativas, o empossando Mário de Alencar admitiu confiar mais na força do acaso, “que é a nossa providência ou a nossa ignorância, do que na teoria dominadora entre os homens”. Já para Bernanos, não existe acaso ou coincidência. O que assim chamamos não é senão a lógica de Deus!
O pequeno José, filho do Padre João Carlos Monteiro e de Maria Justina do Espírito Santo, nasceu na fazenda da Lagoa de Cima, propriedade de seu pai, onde permaneceu durante os treze primeiros anos de sua existência. Ali ele assistiu o feitor de seu pai submeter um dos escravos a penoso suplício, o que lhe encheu de revolta o espírito. Inebriou-se de indignação.
Em 1868, chegou à Corte. Conta Orico: “O Rio já era, nesse tempo, a Canaã dos deserdados, daqueles que, no naufrágio da província, volviam os olhos para a melhor ilusão”. Não completara ainda catorze anos. Era inexperiente. Cresceu, autodidata, educou-se. Transformou a realidade. Para melhor. Leia mais sobre José do Patrocínio, hoje praticamente no ostracismo.
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo