Há uma ameaça silenciosa rondando um dos maiores patrimônios ambientais de Jundiaí. Daqui a poucos meses, em dezembro deste ano, termina a vigência da norma que impede a aprovação de novos empreendimentos imobiliários na Serra do Japi. Se nenhuma medida for adotada, abre-se uma perigosa brecha para o avanço da especulação imobiliária sobre um dos mais importantes remanescentes de Mata Atlântica do Estado de São Paulo.
Não se trata de uma preocupação abstrata. Sem a renovação dessa proteção, loteamentos, condomínios e outras formas de ocupação poderão voltar a pressionar uma área estratégica para a conservação da biodiversidade, da segurança hídrica e do equilíbrio climático não só de Jundiaí, mas de toda a região.
É justamente para evitar esse cenário que cresce em Jundiaí uma mobilização em defesa do Projeto de Lei Complementar apresentado pelo vereador Henrique Parra, que propõe prorrogar por mais dez anos as restrições à ocupação da Serra, garantindo mais tempo para que uma legislação definitiva seja revisada com responsabilidade e embasamento técnico.
Enquanto parte do debate tenta colocar preservação e desenvolvimento em lados opostos, a ciência demonstra exatamente o contrário. Preservar a Serra do Japi é investir no futuro de Jundiaí. Uma pesquisa recente conduzida por pesquisadores da Universidade de São Paulo identificou 22 espécies de libélulas e donzelinhas na Reserva Biológica da Serra do Japi, sendo três delas registradas pela primeira vez no Estado de São Paulo.
O dado impressiona, mas seu significado é ainda maior. Esses insetos são considerados excelentes indicadores da qualidade ambiental. Muitas das espécies encontradas sobrevivem apenas em riachos de águas limpas, bem oxigenadas e cercados por vegetação preservada. Em outras palavras, a pesquisa confirma que a Serra continua sendo um dos ecossistemas mais íntegros e valiosos do interior paulista.
Essa riqueza biológica não existe por acaso. A Serra do Japi protege as nascentes, regula o clima, abriga centenas de espécies da fauna e da flora e presta serviços ambientais indispensáveis para a qualidade de vida na cidade. Sua preservação garante água, reduz os impactos das mudanças climáticas e mantém um patrimônio natural que nenhuma compensação financeira será capaz de reconstruir depois de destruído.
A escolha que Jundiaí tem diante de si é simples. Podemos agir com responsabilidade, ouvindo a ciência e protegendo um patrimônio que levou milhares de anos para se formar, ou permitir que a especulação imobiliária e seus interesses imediatos coloquem em risco um legado insubstituível.
A história mostra que cidades podem recuperar prédios, avenidas e empreendimentos. Mas não existe tecnologia capaz de recriar uma floresta madura, recuperar uma nascente perdida ou trazer de volta espécies que desapareceram. Retrocesso não pode ser confundido com desenvolvimento.
Deputado Maurici é primeiro secretário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo