Feriado hoje em homenagem à Revolução Constitucionalista de 1932.
A cada ano, menos gente sabe que foi um levante armado liderado pelo estado de São Paulo contra o governo provisório de Getúlio Vargas, que teve início em nove de julho. O movimento desejava o fim do autoritarismo, a convocação de eleições e uma nova Constituição.
A insatisfação com Getúlio Vargas surgiu após a Revolução de 30, quando ele assumiu o poder com atitudes ditatoriais e começou a interferir nos estados nomeando interventores. A Revolução de 1930 foi um golpe de Estado cívico-militar que depôs o presidente da República Washington Luís em 24 de outubro de 1930, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes e encerrou o período conhecido como República Velha.
O ponto alto das Revolução de 32 aconteceu em 23 de maio, quando reprimiram um protesto no qual foram mortos quatro estudantes: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo - MMDC. A Revolução terminou em outubro do mesmo ano com a derrota militar de São Paulo, que lutou praticamente sozinho, rendido pelas tropas federais de Getúlio Vargas. Politicamente, no entanto, o Movimento alcançou seus objetivos, pois forçou o presidente a reabrir a Assembleia Constituinte, o que resultou na Constituição de 1934, onde constaram antigas reivindicações paulistas e nacionais como o voto secreto, o voto feminino, direitos trabalhistas e novas eleições.
Tenho vivo comigo esse episódio da história de São Paulo porque nosso pai e nossos tios, Luís e Benedito, por vontade própria, se alistaram.
No Hino da Revolução de 32, os versos compostos por Benedito Cleto: “Salve, M.M.D.C! / Por nós tombastes, pelo direito, / A glória Deus vos dê, / por nosso sangue derramado, / no céu láurea de heróis. / Por vós São Paulo é glorificado. /Valentes, salve os Paulistas/ dos batalhões constitucionalistas!”.
Ao mesmo tempo em que penso no idealismo dos que lutaram pela democracia, que tinham como objetivo a liberdade do povo, leio o texto de meu amigo Luís Alberto, um jovem, sobre a decadência do que dura para sempre. Escreve ele: “... A gente normalizou o descartável. Normalizou sumir, trair, normalizou rir da dor do outro. A gente chama de liberdade o que na verdade é falta de caráter. (...) É Tinder, é Instagram, é Direct, é Story, é gente entrando e saindo da sua vida como se fosse porta giratória. (...) Lealdade virou artigo de luxo, raro, caro, quase ninguém tem. (...) A gente precisa voltar a ser de verdade, porque, do jeito que está, a gente vai morrer com mil seguidores e sem ninguém para segurar nossa mão.”
Dos que normalizaram o descartável, quem sairia de sua comodidade, espontaneamente, para enfrentar uma revolução que exigia o respeito pelo povo? O inesquecível escritor Paulo Bomfim escreveu um poema sobre os jovens de 32 do qual transcrevo uma parte: “Os fuzis sem munição,/ Os capacetes de aço,/ Os trilhos do trem blindado,/ O lema de nossas vidas,/ A saga de vossos passos, / Ó jovens de 32!/ Em que ossário vossa audácia/ Fala aos que dormem por fuga,/ Em que campo vossa morte/ Clama aos que morrem em vida ...”
Que a audácia de cada um de 32 fale aos jovens que morrem em vida.
Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista